Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

Volta à "BANANA REPUBLIC"

Cristian Tauchner

El Niño e corrupção jogaram o Equador no fundo do poço

Segunda feira, 15 de março, foi um dia de chuva em Quito. Eu estava voltando depois de uma semana no exterior. Meu avião aterrissou com um pouco de atraso no aeroporto de Quito e eu estava contente de chegar a casa, de ver as coisas que deveria fazer, os amigos e companheiros. Saindo do aeroporto, encontrei um amigo: "Não dá para chegar a tua casa", disse-me. E assim, aos poucos, ia me dando conta de que, numa semana, nosso país, o Equador, havia entrado numa tremenda crise. Para começar, os taxistas tinham bloqueado toda a cidade, não havia transporte público, ninguém podia mover-se. Cheguei a minha casa quatro dias depois, pois consegui ficar hospedado na casa de uns amigos. Nos dias seguintes, também trabalhadores nos transportes se juntaram a essa greve. A razão era o aumento dos preços da gasolina - mais de 150% - e isso não lhes permitia continuar trabalhando. Os professores estavam em greve há um mês, porque fazia meses que não recebiam o salário. Também a moeda tinha-se desvalorizado seriamente, num momento de especulação que dobrou, em poucos dias, o preço do dólar. Para tentar deter esta especulação, o governo decretara um feriado bancário, para que o sistema financeiro do país não quebrasse. Em seguida, decretou que todas as poupanças depositadas nos bancos equatorianos dentro e fora do país ficariam congeladas por um ano. Na minha situação, isso significava: não tenho mais dinheiro, não posso chegar a minha casa. Na realidade, porém, essa história começou muito antes.

Uma longa história de vergonhas políticas

No final de 1995, o então vice-presidente do Equador, Alberto Dahik, fugiu às pressas para Costa Rica, a fim de escapar de uma possível captura. Esta notícia comprovou que o Equador continua sendo uma "banana republic". Em fevereiro de 1997, o presidente Abdalá Bucaram foi expulso do país em meio a enormes protestos populares. Sucedeu-lhe Fabián Alarcón que, com o apoio dos deputados no congresso, conseguira ser eleito, primeiro, presidente do congresso e, depois, presidente interino. Desde a metade de março deste ano, ele também está preso, sob a acusação de ter roubado fundos do Estado. Seu ministro do Interior - César Verduga - acaba de ser preso no México, depois de ter fugido do país com quantias astronômicas roubadas ao Estado. Em 1998, foi eleito presidente o ex-prefeito de Quito, Jamil Mahuad. Ele convenceu muita gente pela sua cara honesta, seu carisma de comunicador, de pessoa serena e capaz. O país, porém, agora está vendo que, também atrás desta cara honesta, não tem nada: trata-se de um personagem entregue a uma política neoliberal radical, absolutamente disposto a pagar a dívida externa, a entregar o patrimônio do Estado à indústria privada e a prestar-se a oferecer palavras agradáveis para disfarçar realidades cruas.

Um país quebrado

Jamil Mahuad herdou um país em ruínas devido ao fenômeno de El Niño, que havia inundado e destruído praticamente toda a costa. Este mesmo fenômeno, que tinha provocado chuvas no Equador e em outros países latino-americanos, causou um inverno menos frio nos países do Norte. Como conseqüência, baixaram os preços do petróleo, que é o produto de exportação mais importante do país. O orçamento público estava calculado sobre um preço de 14 dólares por barril que, porém, caiu pela metade. Assim, o Estado ficou realmente sem fundos. Mas há uma outra causa para os graves problemas do país: uma tremenda corrupção. Dois anos atrás, calculou-se que 7% do produto interno se perde na corrupção. Uma decisão da política neoliberal foi tirar os subsídios que o Estado tinha dado para o gás. Desta maneira, o gás subiu de 5.000 a 25.000 Sucres por tanque. Isso afeta especialmente as famílias mais pobres, que não têm como pagar importâncias desse porte. Por isso, o governo inventou um bônus mínimo para os mais pobres, que devem fazer longas horas de fila para conseguir uma miséria de "bônus solidário".

O jogo dos bancos

O dramaturgo alemão, Bertold Brecht, perguntava-se se é mais criminoso quem assalta um banco ou quem funda um banco. No Equador, ele encontraria muitos argumentos para confirmar sua idéia. Como no mundo todo, os bancos pertencem a fortes grupos econômicos do país, muitas vezes às famílias que são donas de um grande número de indústrias. Durante longos anos, funcionou bem o sistema de usar os bancos para ajudar as próprias empresas com empréstimos. O negócio deve ter sido bom, porque existem no Equador cerca de 45 bancos, quando para o tamanho do país a metade seria mais que suficiente. Nos últimos anos, está sendo denunciada também a lavagem de dólares. O Estado, praticamente, não controlou estas atividades duvidosas dos bancos - outro sinal da corrupção generalizada. As dificuldades começaram a aparecer e neste ano, dois bancos grandes passaram por uma grave crise. Nos dois casos, o governo, que prega sempre a eficácia da empresa privada, entregou fundos do Estado para salvar os bancos. Enquanto o "bônus solidário" em favor dos mais pobres significa um gasto de 180 milhões de dólares para o Estado, a um dos dois bancos foram dados 700 milhões de dólares, ao outro pouco menos. Em março deste ano, um outro banco grande estava para quebrar. Isso fez estourar todo o conflito social: greves em todo o país, os fundos congelados para salvar os bancos irresponsáveis e uma crescente desconfiança na viabilidade do país.

A voz da Igreja

Há que distinguir dois aspectos. De um lado, estão as comunidades de base e os cristãos organizados de alguma maneira. Esta parte da Igreja caracteriza-se por uma consciência um pouco mais crítica frente à realidade de corrupção e ao caos político. Mas, apesar disso, falta uma visão política mais clara porque, em geral, a hierarquia evitou de enfrentar o tema político. Por isso, não há nenhuma alternativa válida que se poderia apoiar para conseguir uma mudança no país. A hierarquia, do outro lado, está bastante dividida. Há algumas vozes proféticas - como dom Luna, de Cuenca - que não hesitaram em dizer claramente a verdade. A maior parte, porém, está procurando acomodar-se à situação. Os pronunciamentos da Conferência Episcopal, nesta última crise, foram muito fracos e não vão além de um apelo à calma e a um compromisso com o bem comum. O futuro? Muitas vezes pensávamos que tínhamos chegado ao fundo da crise e até agora, infelizmente, nos enganamos. Nossa esperança é que, desta vez, nossa interpretação dê certo e que não se criem mais problemas para um povo que sofreu demais.

 

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