Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

 

por Giampiero Sandionigi

ntrevistamos padre Elígio Locatelli, 67 anos, salesiano, que chegou a Timor Leste em 1964, convidado pelos portugueses, para abrir uma escola agrícola. Ele viu o fim da colonização portuguesa em 1975, a ocupação da ilha pelas tropas indonésias, o fim dessa nova dominação e o começo de um novo Timor Leste, agora país independente, em 20 de maio de 2002. Tem, portanto, uma visão objetiva dessa nova realidade, comparando-a com o passado.

Ele começa falando da presença dos funcionários da ONU, de culturas e nacionalidades diferentes, na capital, Dili, e em mais doze cidades, para acompanhar a transição de Timor Leste de província da Indonésia para Estado soberano. Os membros da missão da Onu têm um teor de vida muito diferente da população local e seu comportamento deixa muito a desejar. Eles já começam a falar em direito de divórcio e aborto. Alguém começa a dizer que é para tirar o crucifixo das escolas e abolir o ensino da religião.

Pe. Locatelli reconhece que a presença do pessoal da Onu foi positiva sob vários aspectos. Por exemplo, eles garantiram a realização do plebiscito. Antes, sob a dominação Indonésia, qualquer eleição era repetida várias vezes até que os resultados estivessem de acordo com a vontade dos ocupantes. Em 1999, pelo contrário, cada um se sentiu à vontade de escolher quem queria. Agora, contudo, o padre diz que especialmente os jovens estão querendo imitar o estilo de vida do pessoal da Onu e perdendo rapidamente os valores cristãos enraizados no povo há muito tempo.

A passagem da dominação da Indonésia para a independência foi muito violenta. Apesar da presença dos membros da missão da Onu, houve vinganças e destruições. A cúpula militar que residia em Dili tinha decidido que, no momento em que deixasse a ilha, destruiria tudo o que tinha construído durante os vinte anos de ocupação. Foram os militares os responsáveis pelo fracasso da política Indonésia em Timor Leste. Tinham ocupado a ilha com a intenção de se impor pela violência e o desprezo dos direitos humanos. Eram eles que organizavam o contrabando das armas destinadas aos guerrilheiros das Filipinas.

Quando, em 1975, as tropas indonésias invadiram Timor Leste, muitas aldeias foram queimadas, ou por eles ou pelos guerrilheiros da Frente pela Independência de Timor Leste (Fretilin). Quando destruíam uma aldeia, esses últimos levavam consigo, para as montanhas ou as florestas, a população civil. Em 1978 e 79, essas pessoas, cobertas por trapos, começaram a descer das montanhas, mas foram fechadas em campos de concentração pelas tropas indonésias. Somente após 1985, a população pôde voltar aos seus lugares de origem.

Padre Locatelli fala de sua presença em Timor Leste, na cidade de Fatumaca, onde reside até agora. O centro, que ele e seus coirmãos salesianos dirigem, orienta os agricultores, dando sugestões para o plantio e a colheita e alugando seus 12 tratores a baixo preço. A escola que dirigem tem como objetivo a formação dos alunos para várias profissões, como mecânica, eletrônica e marcenaria.

Os alunos vêm também de muito longe, pois esta é a única escola bem equipada em todo Timor Leste. Há outra semelhante na capital, mas em condições precárias devido às devastações que sofreu logo depois do plebiscito. O centro dos salesianos foi o único que foi poupado pelos militares indonésios. Eles pediram ajuda aos padres para que os ajudassem a deixar a ilha, e os padres o fizeram, em troca da garantia que não destruiriam nada.

Olhando para o futuro

O missionário pensa no futuro, convicto de que o pior está por vir. A pobreza é maior que antes e o povo não está satisfeito. No momento, a única esperança de um rápido crescimento está nas jazidas petrolíferas que se encontram em suas águas territoriais. Os direitos de exploração já foram concedidos a companhias estrangeiras, que se comprometeram em pagar 200 milhões de dólares por ano, durante 20 anos, quantia modesta, mas nem tanto se comparada ao orçamento total para este ano que foi de 73 milhões. Mas até que esse dinheiro chegue, a situação continua calamitosa.

A agricultura definha e, o que é pior, não há nenhuma política para que possa ser reativada. A terra produz café de ótima qualidade, mas somente numa determinada região e em pequena quantidade. Os produtos principais são milho, arroz e amendoim, cuja exportação é prejudicada por causa dos preços muito altos. Antes de 1975, a verdadeira riqueza de Timor Leste era o gado. Os soldados indonésios acabaram destruindo quase tudo, porque o gado representava a principal fonte de sustento para os guerrilheiros e o povo que se tinham refugiado nas florestas. Vieram depois as condições climáticas desfavoráveis, como, por exemplo, a escassez das chuvas.

"Se, de um lado, o domínio da Indonésia oprimiu os timorenses, de outro, oferecia condições de trabalho", continua pe. Locatelli. "Naquela época, Timor Leste era uma província desse país.

Conforme as diretivas do governo central, embora fosse uma pequena província, deveria ter todas as estruturas que as demais, bem maiores e mais importantes, tinham. Isso oferecia a possibilidade de emprego a muitos timorenses. Embora os salários fossem muito baixos, às vezes ridículos, eram suficientes para viver.

A missão da Onu não pôde manter todas essas estruturas e se viu na obrigação de demitir muitas pessoas". Assim, o clima de descontentamento se traduz, muitas vezes, em episódios de violência. Não se trata só disso.

A maioria das pessoas acaba se acomo-dando e se considera esquecida e abando-nada. O governo não está fazendo muita coisa e sua ação não está sendo percebida pela população. Assim, o petróleo, única esperança imediata de crescimento, poderia tornar-se o meio para que poucos privilegiados possam enriquecer.

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