Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
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A guerra terminou no Iraque, mas o pós-guerra apresenta-se com dificuldades enormes e quase insuperáveis, devido à composição étnica e religiosa dos grupos que formam o tecido populacional do país, fortemente adversos. La Civiltà cattolica O centro do Iraque é habitado por uma população árabe, muçulmana sunita, isto é, pertencente à ortodoxia islâmica que fundamenta a sua fé não somente sobre o Alcorão, mas também sobre a Sunnat al Nabi (a maneira de viver do Profeta), que reúne as tradições de Maomé e dos seus primeiros seguidores. Os sunitas constituem a grande maioria do mundo muçulmano (90%), mas, embora tivessem dominado o país até a queda de Saddam Hussein, são minoria no Iraque. A maioria dos muçulmanos no Iraque (60%) é constituída por xiitas que se estabeleceram especialmente ao sul.
Para entender a dificuldade de fazer conviver pacificamente os dois grupos islâmicos, é preciso lembrar o antagonismo entre eles que provém desde os primeiros tempos do Islã. Logo após a morte de Maomé, quando se tratou de eleger um sucessor do profeta, a maioria dos seguidores se pronunciou para eleger Abu Bakr, o sogro de Maomé e o mais fiel entre os seus seguidores, enquanto uma minoria foi favorável a Ali, marido de Fátima, filha de Maomé. Nasceu então a Shi'at Ali (o partido de Ali), para o qual podia ser califa ou chefe supremo do islã somente um descendente legítimo do profeta. Esse movimento se separou da Sunnat al Nabi, formando um movimento particular do Islã, com algumas crenças próprias. A autoridade maior é o imã, que deve ser um descendente da família de Maomé, e que, por isso, possui uma luz própria, uma participação da divindade, razão pela qual detém uma ciência superior, é infalível e impecável. Conforme uma tradição xiita, o último imã, Muhammad ibn al-Hasan al Askari, nascido em 869, não teria morrido mas estaria escondido para reaparecer como Mahdi (messias ou ser superior) para reconduzir a terra à justiça e à bondade, antes do juízo final. Outros acontecimentos históricos aprofundaram o cisma entre os sunitas e xiitas, como o assassinado do xiita Al-Hussein, por parte dos sunitas, em Kerbala, cidade santuário no Iraque, que, antes proibida pelo sunita Saddam, após a guerra, tornou-se lugar de peregrinação dos xiitas. Durante a peregrinação realizada em abril passado, após a queda do Saddam, milhares de xiitas gritaram slogans contra os sunitas, choraram a morte de Muhammad, inspiraram-se para ataques suicidas contra os agressores ocidentais e pediam para as tropas americanas que deixassem o país e que não impusessem uma democracia de tipo ocidental, porque eles, muçulmanos, sabem como se organizar sem imposições ou protetorados estrangeiros. A presença desses três grupos, que visceralmente se odeiam, torna difícil a composição de um governo em que todos - sunitas, xiitas, curdos e cristãos - estejam representados. Os xiitas pedem eleições democráticas na certeza de que, sendo o maior grupo no país, terão maioria absoluta num provável governo e assim poderão dominar os curdos, sunitas e cristãos. De outro lado, os ocidentais têm que entender que um país islâmico nunca aceitará ser governado definitivamente por uma potência estrangeira, ainda mais se ocidental e cristã. Seria a máxima humilhação para um país islâmico que provocará revolta e rejeição com qualquer meio contra as forças invasoras. O futuro incerto Há que se considerar, ainda, que a guerra no Iraque, combatida e vencida pelo Ocidente, considerado pelos muçulmanos como "materialista, corrupto, ateu e descrente", envolveu todo o mundo islâmico que se sentiu ferido e humilhado e, portanto, cedo ou tarde, com atos terroristas ou com a conquista do poder político-econômico, com atentados ou com a arma do petróleo, vai se vingar. É muito provável que o silêncio dos países muçulmanos - alguns dos quais, moderados que tinham interesse na substituição de Saddam Hussein e seu regime - iludiu os ocidentais de que o Islã receberia sem trauma a invasão ocidental de um país muçulmano que, do ponto de vista político, cultural, artístico e místico, é um dos mais importantes entre eles. Se os poderes públicos se calaram, por medo de ser taxados de vis ou para não suscitar suspeitas nos falcões americanos, ou ainda para não dar motivos aos movimentos fundamentalistas antigovernamentais, os povos e as facções islâmicas não ficaram quietos, mas promoveram manifestações antiocidentais em muitos países. As ameaças e as admoestações feitas pelo governo estadunidense a países muçulmanos, como a Síria e Irã, geraram situações de mal-estar no mundo islâmico, criando o temor de que outros países islâmicos poderiam ou poderão ser invadidos como o Iraque. Esta reação já está aparecendo com os atentados contra as tropas invasoras que demonstram como dificilmente, o mundo islâmico vai aceitar que os Estados Unidos e o Ocidente se estabeleçam, definitivamente ou quase, no Oriente Médio, para manter sob controle político ou econômico toda a região. Isto é para o Islã uma nova forma de colonialismo, e que não será permitido, porque no Alcorão está escrito (s 3 -110) "Vocês são o melhor país surgido entre os homens. Vocês, de fato, promovem a justiça, impedem a iniqüidade e crêem em Alá". Não é possível, portanto que os ocidentais, tidos como descrentes e corruptos, dominem, para seus iníquos interesses, os crentes islâmicos. Alá não o quer e esta sua vontade deve ser respeitada com todos os meios, seja com a Jihad (guerra santa), o martírio suicida em honra de Alá ou destruição dos infiéis. |
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