Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Américas
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Guerrilha e tráfico De repente, o estrondo longínquo de uma explosão. Num primeiro momento, as pessoas pensaram que se tratava de fogos, mas logo que as TVs dos bares e dos restaurantes começaram a transmitir as imagens do edifício do Nogal em chamas, todos repararam que havia acontecido algo grave. Apesar de tudo, porém, o ritmo da festa prosseguia. Dos locais continuavam a sair os ritmos das músicas e as pessoas, embora abaladas pela repetida tragédia, continuavam seu caminho, como que acostumadas à morte e aos massacres diários. Um dos símbolos da oligarquia colombiana havia sido atingido, muito provavelmente pelas Farc (Forças armadas revolucionárias da Colômbia), que há tempo planejam estender a guerra às cidades com métodos terroristas, ou - esta é a segunda hipótese - por setores do tráfico, que querem bloquear a extradição dos chefões da droga para os Estados Unidos. Porém, nos ambientes antigovernamentais, há também quem diga que a chacina tenha sido provocada pelos serviços secretos com a intenção de incriminar e denegrir as Farc no mundo e justificar a mão dura do presidente Uribe e uma possível intervenção da comunidade internacional.
Deixando de lado o conflito que há cinqüenta anos ensangüenta as regiões rurais do país, as chacinas na própria Bogotá não são uma novidade. Se foram as Farc as responsáveis da tragédia do Nogal, é novo o fato de que a guerrilha, com uma ideologia marxista arcaica e uma tradição sobretudo rural, comece a operar nas cidades. Porém, na segunda metade dos anos oitenta e o início dos noventa, também o centro político e administrativo do país foi teatro das bombas e dos massacres. Primeiro, o M 19, uma guerrilha de esquerda, especializada em conflito urbano e, depois, sobretudo o narcotraficante Pablo Escobar semearam o terror na capital. A indiferença diante da morte e da violência, alimentada cada dia por imagens de guerra e destruição transmitidas pelos telejornais, gerou no povo uma atitude fatalista. O homem médio não vê a possibilidade de mudar as coisas em um país onde a maioria dos homicídios fica impune, onde os políticos são corruptos, onde os narcotraficantes são sanguinários sem coração e onde a violência de caráter político-social parece não ter fim. Alguns são tão pessimistas que vêem numa invasão americana a única possibilidade de redenção. Poucos privilegiados Por todas essas razões, muitos colombianos, sobretudo os que têm a possibilidade de construir uma existência confortável nas cidades, não querem saber nada do conflito e fazem todo o possível para ficar longe, dando origem a uma verdadeira cultura da separação e de fuga da realidade, que é uma das características mais singulares do estilo de vida da classe média mais alta. A Colômbia é um país jovem, tropical, onde o clima é doce o ano todo. Basta ter dinheiro e é fácil esquecer o social e se deixar arrastar pela cultura da rumba e da vida boa, entrincheirados nos bairros altos, nas zonas comerciais protegidas, nos locais da moda e nos clubes como o Nogal. No norte de Bogotá, a parte mais rica da capital, habitada por cerca de um quarto da população, há uma verdadeira obsessão pela segurança. Em muitos lugares, as ruas são militarizadas e todos os edifícios e centros comerciais são vigiados durante 24 horas por um exército de guardas particulares. Uma pessoa que cresce nesse ambiente é acostumada, desde pequena, a viver num mundo à parte, longe das difíceis realidades do centro, do sul e dos bairros de invasão, onde vivem os pobres e os miseráveis e onde proliferam todas as problemáticas sociais - analfabetismo, homicídios, desnutrição, droga, prostituição de menores, violência familiar, alcoolismo.
A separação entre a elite e as massas começa desde o colégio e continua na universidade e no mundo do trabalho. Os melhores colégios de Bogotá, todos particulares, geralmente bilíngües e extremamente caros, oferecem uma proteção total aos alunos durante todo o dia. Eles são recolhidos de manhã pelos ônibus escolares e à tarde levados para casa. Assim, esses jovens são impedidos de ter uma idéia concreta da realidade que os rodeia. Quando chega o momento de fazer o serviço militar, que na Colômbia é uma coisa particularmente perigosa, basta pagar e os filhos dos ricos ficam em casa. Os ricos não enviam os filhos a morrerem pelo seu país. O conflito colombiano acontece tristemente entre pobres contra outros pobres. Depois vem a universidade. Quem deseja ter um bom trabalho na Colômbia deve sair das universidades particulares mais prestigiosas, como Los Andes ou a Xaveriana de Bogotá, mas para entrar deve ter estudado antes num bom colégio. Mas isso, só é possível às famílias que podem enfrentar os custos muito elevados desses estabelecimentos escolares. Na capital, a única universidade pública de ótimo nível é a Nacional, freqüentada pelas melhores cabeças das classes pobres e, junto com a universidade de Antioquia de Medellín, considerada o mais importante reservatório de cérebros da esquerda. Aqui se forma também hoje a intelligentsia da subversão. Como se vê, é todo um círculo vicioso que favorece os mais ricos e cria ressentimento entre os mais pobres. Para que as coisas mudem realmente, a classe mais favorecida das cidades deve mudar sua mentalidade. Não pode fechar-se em si mesma, criando um país imaginário, esquecendo os males que o destroem. |
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