Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

uando estourou a autobomba no clube El Nogal de Bogotá, na noite de 7 de fevereiro, provocando 33 mortos e numerosos feridos, a burguesia da cidade preparava-se para viver mais um fim de semana na base de rumba, rum e aguardiente. Os pontos mais famosos das noites da capital estavam lotados de grupos de moços e moças que se dirigiam para os cinemas e as discotecas, vestidos como os ídolos do pop latino. Pelas ruas passavam peruas com os rádios ao máximo. Os restaurantes estavam superlotados. E no meio de tudo isso, como num mundo paralelo, havia o habitual vaivém dos moradores de rua, que fuçavam no lixo, catadores de papel, e crianças que vendiam rosas, cigarros, balas e chicletes.

Guerrilha e tráfico

De repente, o estrondo longínquo de uma explosão. Num primeiro momento, as pessoas pensaram que se tratava de fogos, mas logo que as TVs dos bares e dos restaurantes começaram a transmitir as imagens do edifício do Nogal em chamas, todos repararam que havia acontecido algo grave. Apesar de tudo, porém, o ritmo da festa prosseguia. Dos locais continuavam a sair os ritmos das músicas e as pessoas, embora abaladas pela repetida tragédia, continuavam seu caminho, como que acostumadas à morte e aos massacres diários.

Um dos símbolos da oligarquia colombiana havia sido atingido, muito provavelmente pelas Farc (Forças armadas revolucionárias da Colômbia), que há tempo planejam estender a guerra às cidades com métodos terroristas, ou - esta é a segunda hipótese - por setores do tráfico, que querem bloquear a extradição dos chefões da droga para os Estados Unidos. Porém, nos ambientes antigovernamentais, há também quem diga que a chacina tenha sido provocada pelos serviços secretos com a intenção de incriminar e denegrir as Farc no mundo e justificar a mão dura do presidente Uribe e uma possível intervenção da comunidade internacional.

A Igreja católica sempre teve um papel muito importante na história do conflito colombiano. Sempre houve um padre ou um bispo na linha de frente, durante todos os processos de aproximação entre o governo e a guerrilha das Farc (Forças armadas revolucionárias da Colômbia), sobretudo a partir de 1995. Em todas essas situações a Igreja procurou mediar e pagou, diretamente, o preço do conflito, com a perda de numerosos membros, religiosos e leigos. Mas não foi a única. Personagens da política, do jornalismo e da justiça sofreram duros golpes, assim como a população civil.

Jorge Cardona

Deixando de lado o conflito que há cinqüenta anos ensangüenta as regiões rurais do país, as chacinas na própria Bogotá não são uma novidade. Se foram as Farc as responsáveis da tragédia do Nogal, é novo o fato de que a guerrilha, com uma ideologia marxista arcaica e uma tradição sobretudo rural, comece a operar nas cidades. Porém, na segunda metade dos anos oitenta e o início dos noventa, também o centro político e administrativo do país foi teatro das bombas e dos massacres. Primeiro, o M 19, uma guerrilha de esquerda, especializada em conflito urbano e, depois, sobretudo o narcotraficante Pablo Escobar semearam o terror na capital.

A indiferença diante da morte e da violência, alimentada cada dia por imagens de guerra e destruição transmitidas pelos telejornais, gerou no povo uma atitude fatalista. O homem médio não vê a possibilidade de mudar as coisas em um país onde a maioria dos homicídios fica impune, onde os políticos são corruptos, onde os narcotraficantes são sanguinários sem coração e onde a violência de caráter político-social parece não ter fim. Alguns são tão pessimistas que vêem numa invasão americana a única possibilidade de redenção.

Poucos privilegiados

Por todas essas razões, muitos colombianos, sobretudo os que têm a possibilidade de construir uma existência confortável nas cidades, não querem saber nada do conflito e fazem todo o possível para ficar longe, dando origem a uma verdadeira cultura da separação e de fuga da realidade, que é uma das características mais singulares do estilo de vida da classe média mais alta. A Colômbia é um país jovem, tropical, onde o clima é doce o ano todo. Basta ter dinheiro e é fácil esquecer o social e se deixar arrastar pela cultura da rumba e da vida boa, entrincheirados nos bairros altos, nas zonas comerciais protegidas, nos locais da moda e nos clubes como o Nogal.

No norte de Bogotá, a parte mais rica da capital, habitada por cerca de um quarto da população, há uma verdadeira obsessão pela segurança. Em muitos lugares, as ruas são militarizadas e todos os edifícios e centros comerciais são vigiados durante 24 horas por um exército de guardas particulares. Uma pessoa que cresce nesse ambiente é acostumada, desde pequena, a viver num mundo à parte, longe das difíceis realidades do centro, do sul e dos bairros de invasão, onde vivem os pobres e os miseráveis e onde proliferam todas as problemáticas sociais - analfabetismo, homicídios, desnutrição, droga, prostituição de menores, violência familiar, alcoolismo.

Em certo sentido, o único contato que os do norte têm com os do sul é por meio das domésticas e dos guardas. Em Bogotá, é possível encontrar muitas pessoas que nunca estiveram no sul e não têm o menor interesse de ir. Muitos colombianos da burguesia não querem olhar a cara da pobreza e da violência de seu país. São orgulhosos da Colômbia, de seus artistas, como Garcia Márquez e Fernando Botero, da beleza de suas mulheres e de sua terra, mas esquecem com demasiada facilidade todas as terríveis injustiças sociais que existem.

A separação entre a elite e as massas começa desde o colégio e continua na universidade e no mundo do trabalho. Os melhores colégios de Bogotá, todos particulares, geralmente bilíngües e extremamente caros, oferecem uma proteção total aos alunos durante todo o dia. Eles são recolhidos de manhã pelos ônibus escolares e à tarde levados para casa. Assim, esses jovens são impedidos de ter uma idéia concreta da realidade que os rodeia.

Quando chega o momento de fazer o serviço militar, que na Colômbia é uma coisa particularmente perigosa, basta pagar e os filhos dos ricos ficam em casa. Os ricos não enviam os filhos a morrerem pelo seu país. O conflito colombiano acontece tristemente entre pobres contra outros pobres. Depois vem a universidade. Quem deseja ter um bom trabalho na Colômbia deve sair das universidades particulares mais prestigiosas, como Los Andes ou a Xaveriana de Bogotá, mas para entrar deve ter estudado antes num bom colégio.

Mas isso, só é possível às famílias que podem enfrentar os custos muito elevados desses estabelecimentos escolares. Na capital, a única universidade pública de ótimo nível é a Nacional, freqüentada pelas melhores cabeças das classes pobres e, junto com a universidade de Antioquia de Medellín, considerada o mais importante reservatório de cérebros da esquerda. Aqui se forma também hoje a intelligentsia da subversão.

Como se vê, é todo um círculo vicioso que favorece os mais ricos e cria ressentimento entre os mais pobres. Para que as coisas mudem realmente, a classe mais favorecida das cidades deve mudar sua mentalidade. Não pode fechar-se em si mesma, criando um país imaginário, esquecendo os males que o destroem.

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