Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

Nicarágua ontem e hoje

por Costanzo Donegana

O país não está mais no centro dos interesses e debates do mundo.
Ficou pobre e esquecido


Daniel Ortega

avia quase 20 anos que não ia à Nicarágua e foi impressionante notar a diferença entre os anos 80 e hoje. Externamente, a cara do país melhorou. Só em Manágua, a capital, encontram-se bairros novos, muito ricos, que exibem mansões, hotéis, restaurantes, shoppings e lojas de Primeiro Mundo; carros importados passam pelas avenidas e praças mais amplas e renovadas; aumentou o número dos bancos. Mas se trata, como em todo o nosso continente, de uma riqueza concentrada nas mãos de poucos, deixando a maioria da população mais pobre. A Nicarágua é o segundo país mais pobre da América Latina.

GRUPOS DE PODER

Mas o que mais mudou, e está na raiz de todo o resto, é a política. Atualmente, o país é dominado por três grupos econômicos que lutam pela hegemonia:


Violeta Chamorro

Enrique Bolaños

1) o capital conservador tradicional, a antiga oligarquia, que, durante a ditadura da família Somoza, não teve o espaço político aberto para seu desenvolvimento econômico e, portanto, se aliou aos sandinistas na Revolução que derrubou o somozismo;

2) os liberais, a burguesia, que concentram o capital nacional e transnacional;

3) os sandinistas que, durante os anos de seu governo, nacionalizaram as empresas do Estado; muitas delas, porém, acabaram nas mãos dos grandes líderes, na operação chamada la grande piñata (a grande comilança). O projeto de fundo deles é que o sandinismo precisa formar setores de empresários com um grande capital para ter força de negociação na política do país.

A REVOLUÇÃO


Lago de Manágua; a Nicaraguá é conhecida como o país dos vulcões

É esta, que aconteceu no sandinismo, a maior mudança no cenário político, que surpreende quem conheceu o país nos anos da Revolução. Em 1936, o comandante da Guarda Nacional, Anastásio Somoza, assumiu o poder, iniciando uma férrea ditadura militar. Para combater o regime, Carlos Fonseca fundou, em 1962, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), inspirado na figura de Augusto César Sandino, eliminado por Anastásio Somoza em 1934.

Em 1978, o assassinato do jornalista liberal Pedro Chamorro, opositor da ditadura, foi o estopim de uma insurreição popular contra o somozismo, liderada pelos sandinistas. Um ano depois, em 19 de julho de 1979, a guerra popular derrubou o ditador Anastásio Somoza, filho do anterior, iniciando uma fase totalmente nova na vida política e social do país, com a hegemonia da FSLN e um projeto popular, revolucionário, fundado numa utopia socialista, que visava mudar a sociedade nicaragüense.


Feira popular

Numa recente entrevista, Sergio Ramirez, ex-vice-presidente do governo sandinista e escritor, saído da FSLN, descreve o clima daqueles dias:

“Nós nos sentíamos com o poder de varrer o passado, estabelecer o reino da justiça, repartir a terra, ensinar todos a ler, abolir os velhos privilégios, restabelecer a independência da Nicarágua e devolver aos humildes a dignidade que lhes havia sido arrebatada por séculos”.

Inicialmente, o país foi dirigido por uma Junta de Reconstrução Nacional, de cinco membros, da qual faziam parte forças da oposição a Somoza, mas dominada pelos sandinistas (três membros). Em 1980, Violeta Chamorro, viúva de Pedro Chamorro e Alfonso Robelo, liberal, demitiram-se, denunciando a falta de liberdade dentro da Junta.

A FSLN ficou com todo o poder nas mãos e, progressivamente, prevaleceu nele a linha dura que deixava pouco espaço à democracia e levou o país a entrar no campo soviético e numa estreita aliança com Cuba. “Havia cubanos por todo lado”, lembra Sergio Ramirez, “20 mil professores, 5 mil médicos, assessores militares para a polícia, para a pesca, para tudo”.


Cardeal Miguel Obando Bravo

Nessa orientação, influiu a desastrosa política do presidente americano Reagan, que queria destruir o “câncer” que estava crescendo no coração da América Central, financiando, com centenas de milhões de dólares, a contra-revolução (os contras), que recolhia os opositores ao regime, de todas as tendências.

A Nicarágua afundou em uma guerra civil sangrenta que assolou o país durante sete anos, aprofundando divisões entre a população e levando ao limite da crise sua frágil economia, provada também pelo embargo imposto pelos Estados Unidos.

O antiamericanismo provocado pelas inúmeras intervenções dos EUA na América Central, no século passado, e a ideologização da FSLN levaram os sandinistas a fazer da guerra e do embargo o bode expiatório de todos os males do país, concentrando tudo na luta contra o “inimigo”. E “inimigos” tornavam-se todos aqueles que expressavam idéias diferentes das do partido.

O PÓS-SANDINISMO


Antiga catedral de Manágua

A FSLN ganhou as eleições em 1984, colocando Daniel Ortega na presidência, mas, em 1990, não conseguiu prevalecer contra a coalizão da União Nacional Opositora (UNO), chefiada por Violeta Chamorro. A derrota de Daniel Ortega foi motivada, sobretudo, pelas difíceis condições econômicas do país e pelo novo quadro internacional: com a ascensão ao poder de Gorbatchev, na URSS, diminuiu o apoio político e econômico da potência comunista.

Outro forte motivo foi que “a FSLN havia se separado da população”, comenta Gioconda Belli, poetisa e grande líder, saída da FSLN em 1995, “estava se criando cada vez mais uma distância entre o partido, que tinha começado com uma grande base popular, e a própria população. Havia uma espécie de discurso patriótico, que presumia representar toda a população, mas que a representava cada vez menos”.

Violeta governou com uma equipe de tecnocratas, conseguindo ajuda econômica dos EUA, da Europa, da URSS e dos bancos internacionais e melhorou a situação da economia. No seu governo, o país voltou à paz. Com um habilidoso jogo de cintura, soube navegar entre as contrastantes pressões da esquerda e da direita, conservando algumas conquistas do sandinismo e, ao mesmo tempo, abrindo espaços à democracia e introduzindo na economia medidas de corte neoliberal. Sua política deixou algumas graves conseqüências negativas em nível social: o analfabetismo, que a FSLN tinha eliminado, voltou com números impressionantes (600 mil crianças em idade escolar), enquanto os professores recebiam salários irrisórios; o orçamento para a saúde foi reduzido a um terço daquele do governo Ortega; mais do que a metade das famílias passou a viver no limite da sobrevivência.

A Violeta sucedeu o líder do Partido Liberal Constitucionalista (PLC), Arnoldo Alemán, que ganhou as eleições de 1996; Daniel foi derrotado pela segunda vez. O novo presidente, ligado a Somoza na sua juventude, representou o acesso ao poder do grande capital; teve que se aliar a Ortega para alcançar a maioria para governar, mas foram relações turbulentas. Daniel fez equilibrismos que pouco têm a ver com a ética, para conquistar espaços no cenário político. O mesmo ele está fazendo agora, sob o novo presidente, Enrique Bolaños, que ganhou das eleições de 2001, nas quais Ortega confirmou sua vocação de derrotado. Bolaños praticamente não tem partido, mas ganhou e fica no poder pelo fato de ser o candidato dos Estados Unidos que, no seu governo, estão aumentando a ingerência no país. Daniel aproxima-se, ora de Alemán, ora de Bolaños, segundo a pura lógica de seus interesses.

No dia 8 de dezembro de 2003, Alemán foi condenado a 20 anos de prisão com a acusação de lavagem de dólares, fraude e mau uso do dinheiro público. Eu estava no país e pude presenciar a exaltação da enorme maioria do povo ao ouvir a notícia. Alemán é também acusado de crimes no valor de US$ 100 milhões, junto com familiares e vários funcionários. Interessante é a atitude de Daniel Ortega no andamento desse processo, que é fruto da luta anticorrupção decretada pelo presidente Bolaños. Quando Daniel aproximava-se politicamente de Alemán, a FSLN apoiava a absolvição do líder liberal; quando entrava em aliança com Bolaños, exigia a condenação. Como aconteceu em 8 de dezembro.


A Nicarágua é o segundo país mais pobre da América Latina

Um dos aspectos mais tristes nesta história toda é a trajetória da FSLN, que “substituiu a causa sandinista pelo personalismo de Daniel”, como comenta Gioconda Belli. Daniel representa só um grupo e concentra tudo na sua pessoa: não há espaços de diálogo e participação no partido e as decisões são tomadas somente por algumas pessoas.

“Caímos numa liderança de tipo caudilhista”, conclui, desapontado, o dominicano Rafael Aragón, “na qual há o iluminado que tem a visão daquilo que se deve fazer”. Vários líderes históricos da FSLN saíram do partido, entre eles, Sergio Ramirez e os irmãos padres Ernesto e Fernando Cardenal. Alguns fundaram outros partidos.

IGREJA DIVIDIDA

Quase todos os bispos, liderados pelo cardeal Miguel Obando y Bravo, sempre se opuseram ao sandinismo. Tinham boas razões, nos anos 80, quando o fundamentalismo ideológico conferia matizes totalitários ao regime sandinista. Mas, esta crítica assumiu também tons intransigentes, de guerra frontal e exclusão do diálogo, com o apoio à oposição de direita. As declarações públicas do dom Obando são, muitas vezes, politizadas e criam divisão no país, sobretudo no momento das eleições. Ele manifesta publicamente sua simpatia por Alemán (que, quando era prefeito de Manágua, contribuiu muito para a construção da Universidade Católica e da catedral), até proclamar a inocência do ex-presidente, durante o debate sobre as acusações de corrupção contra ele e por ocasião de sua condenação.

O clero diocesano recebe uma formação tradicional, no plano teológico e pastoral e, politicamente, é anti-sandinista e pró-liberal, enquanto entre os religiosos prevalece uma linha de abertura. A Igreja católica, também os leigos, sofre uma forte polarização com polêmicas nos meios de comunicação e perda de liderança moral. Entre os leigos há representantes do sandinismo crítico, empresários e também muitos intelectuais que não confiam mais na Igreja pela sua falta de imparcialidade. Isso é preocupante, porque há no país, um forte retorno ao religioso, seja no povo como nas lideranças; porém, este fenômeno não significa volta à Igreja católica nem às Igrejas históricas, mas se traduz em um pluralismo religioso sem institucionalização nem credo definido. Dentro desse quadro, revela-se cativante o apelo do evangelismo radical.

Um sentimento muito difuso no país, em todos os níveis, é o desânimo. Politicamente, os líderes enfrentam-se numa luta de poder sem valores nem ideais, o sonho sandinista se dissolveu; economicamente, o povo luta para sobreviver; religiosamente, falta um ponto de referência acima das partes. Vários dizem que se abandonou o grande projeto de uma sociedade nova para dedicar-se a pequenas realizações no campo do desenvolvimento e da promoção humana. Talvez isso possa ter o aspecto positivo de indicar que um grande sonho vira utopia, se não se traduz em passos concretos.

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