Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

Uma nação de fortes encontros e desencontros culturais redescobre suas origens,
na perspectiva de um futuro melhor

Para entender um país como a Bolívia, é fundamental olhar a nova Constituição que diz: "A Bolívia é um país pluricultural, multiétnico e multilingüe". Isso significa que se reconhecem as mais variadas expressões e relações culturais que convivem num mesmo território. Com uma população de mais de 8 milhões de habitantes, a Bolívia encontra-se no coração do continente e foi um dos primeiros territórios a lutar pela sua emancipação da colonização espanhola na América.

Com uma grande diversidade de regiões climáticas, nasceu à vida republicana com o nome de República de Bolívar, para honrar o Libertador de América, Simón Bolívar, que liderou a luta pela independência da Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e da própria Bolívia. Ao nascer, a Bolívia tinha uma extensão territorial de 3 milhões de quilômetros quadrados, três vezes o território atual, mas essas terras lhe foram tiradas pelos vizinhos, tanto em guerras injustas quanto em tratados de paz. A população do país, segundo os dados do Censo 2001, é predominantemente indígena (68% do total); porém, durante séculos eles foram explorados, primeiro pelos espanhóis, na época da colônia, e, depois, pelos latifundiários, na era republicana.

O ENCONTRO COM AS RAÍZES

Foi em 1952, mediante uma das mais importantes revoluções da história do país, que se conseguiu implantar a reforma agrária, o voto universal e o reconhecimento dos direitos dos indígenas. Porém, essa revolução não resolveu muitos problemas dos indígenas, que continuaram sem ter nenhuma participação política nem social, até pouco mais de 10 anos atrás.


Gonzalo Sánchez de Lozada, líder do Movimento Nacional Revolucionário, atual presidente da Bolívia

Basta lembrar, como exemplo, que, nas décadas de 60 e 70, no campo cultural, era praticamente impossível apresentar músicas ou danças autóctones ou mestiças, nos clubes ou festas. Estas se encontravam proscritas do âmbito cultural e deviam ser desenvolvidas e divulgadas quase na clandestinidade.

Existia um fortíssimo racismo e uma negação dos vínculos culturais do país. Porém, devido ao sucesso de alguns grupos de música folclórica, pouco a pouco, esse sentimento foi mudando, o país recuperou a identidade dos seus antepassados. E, hoje, a música e as danças são praticadas por todos os estratos sociais e até estão se transformando em símbolos de status.

Essas mudanças refletiram-se também no campo político. Em 1993, o primeiro indígena, Victor Hugo Cárdenas, foi empossado como vice-presidente do país, fato inédito na América Latina. No discurso de posse, ele afirmou: "Após 500 anos, os originários destas terras tomamos a palavra...". Aos poucos, novas gerações de políticos indígenas foram surgindo e sua voz começou a ser cada vez mais ouvida, ganhando mais espaços e experiência.

A última eleição presidencial surpreendeu o mundo todo, não tanto pela vitória de Gonzalo Sánchez de Lozada, líder do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), quanto pelo desempenho do segundo colocado, Evo Morales Ayma, líder dos produtores de coca, que chegou a concorrer ao segundo turno indireto. Na Bolívia, o segundo turno das eleições presidenciais é realizado pelos senadores e deputados nacionais. Para evitar que Morales tivesse alguma chance de vitória, os partidos políticos tradicionais fizeram uma aliança sem nenhum limite.

A SITUAÇÃO ATUAL

Talvez, um dos principais acertos do MNR foi postular à vice-presidência o mais reconhecido jornalista, Carlos D. Mesa, que fora um dos principais promotores da luta anticorrupção no país. Ele organizou a chamada Unidade Anticorrupção, que pretende diminuir um dos principais flagelos que ameaçam o país. Aos poucos, vão aparecendo alguns sinais de mudança, porém o caminho é ainda muito longo.

O diálogo também é um dos principais pontos de encontro entre os novos atores da política boliviana; de fato, por enquanto, ainda não estão acontecendo as lutas e "batalhas" nas ruas, que predominaram durante o governo anterior. Os principais setores de oposição estão esperando a implementação das políticas governamentais para se manifestarem. A paz que agora o país goza é um sinal muito importante, porque demonstra a maturidade política e social dos protagonistas do novo processo, seja no governo como na oposição.

O PROBLEMA DA COCA

A população na Bolívia, desde sempre, utilizou a folha de coca para fins medicinais ou religiosos. As propriedades químicas da coca tornaram-na um remédio alternativo contra doenças. Porém, logo que se descobriu a facilidade com a qual esta planta se reproduz na região do Chapare, a produção cresceu de maneira alarmante, e, diante da procura cada vez mais intensa, os traficantes aproveitaram o baixo custo da coca e desenvolveram um negócio lucrativo, introduzindo o país no circuito internacional do narcotráfico.

Milhares de camponeses decidiram mudar-se para essa região e começaram a plantar coca; aos poucos, foram conseguindo diferentes espaços e a sua organização sindical converteu-se numa das principais do país. Dela surgiu Evo Morales, com uma plataforma altamente anarquista e antiimperialista que, em uma primeira instância, o levou ao parlamento como o político mais votado da história da Bolívia.

A política boliviana, desde 1993, procura explicar que "coca não é cocaína", elaborando, ao mesmo tempo, uma grande estratégia de erradicação das plantações de coca e uma legislação considerada altamente anticonstitucional, que vai contra os direitos de defesa das pessoas, porque castiga antes que seja provada a culpa do acusado.

O FUTURO DO PAÍS

O redescobrimento da identidade indígena do país está fazendo com que as estruturas culturais mudem de maneira radical. Os velhos preceitos das culturas ancestrais dos Andes: incas, tiuanacotas, quechuas, aimarás, entre outros, séculos depois, converteram-se em discurso da classe política.

No campo econômico, com o descobrimento do grande potencial de gás, abriram-se perspectivas muito animadoras. Por exemplo, está se estudando a possibilidade de exportação do gás para os Estados Unidos e México, que, com certeza, poderá garantir um futuro melhor para o país.

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