Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
Percorre-na uma corrente elétrica de alta voltagem, que representa uma constante e letal ameaça à pobre gazela que cisma em passar por ela, como também aos tantos imigrantes ilegais – quinhentos por dia – que anseiam por um futuro melhor. Estamos na fronteira entre Botsuana e Zimbábue, no sul da África. De um lado, uma pequena nação com menos de dois milhões de habitantes, com uma das maiores rendas da África (das minas de Botsuana são extraídos 30% de todos os diamantes do planeta); do outro, um país pobre, disperso, onde – garantem as estatísticas – um quarto, dos quase treze milhões de habitantes, está de malas prontas para abandonar a casa e partir imediatamente. E a meta preferida é Botsuana. Cem mil zimbabuenses, quase todos homens, já emigraram. O governo de Gaborone (capital de Botsuana) expulsa mensalmente 2.500 imigrantes ilegais. Suas prisões se entopem de imigrantes detentos, acusados dos mais diversos delitos. Os seus cidadãos estão alimentando novos sentimentos de xenofobia, em vista da crescente onda imigratória, porque os makwerekwere (estrangeiros) são acusados de raptar suas crianças, corromper as mulheres e grilar suas terras. Os imigrantes que permanecem no país têm que se contentar com os trabalhos mais humildes e ocupar o degrau mais baixo da escala social. A construção da barreira de segurança, que separa a maior parte das fronteiras de Botsuana com o Zimbábue, é uma idéia bem antiga. Surgiu na década de 1950 e prosseguiu até a segunda metade dos anos 60, quando o país obteve sua independência da Grã-Bretanha. Buscando uma alternativa à extração e ao comércio de diamantes, desde então o governo de Gaborone incentivava a criação de gado e levantava as primeiras linhas de cerca. Assim, evitava invasões e protegia os rebanhos dos predadores. Recentemente, porém, intensificou-se a construção da cerca eletrificada, que já perfaz 500 quilômetros de extensão. E a construção continua. Segundo informações da agência Peacereporter, um financiamento de 34 milhões de euros, concedido pela União Européia ao desenvolvimento de Botsuana, deverá cobrir com cerca outras centenas de quilômetros. Este país africano está entre os principais exportadores de carne de novilhos para a Europa. O caso do muro eletrificado deteriorou, compreensivelmente, as relações entre Harare (capital do Zimbábue) e Gaborone. O governo zimbabuense de Robert G. Mugabe, nem um pouco preocupado com direitos humanos, vem acusando os vizinhos, sem meios-termos, de terem feito “a versão africana do muro de segurança de Israel” e “tantos pequenos vestígios como os de Gaza”:
- vilas dividindo comunidades tradicionais, ou cortadas no meio ou, ainda, privadas de água. O muro fomenta o surgimento de sanguinolentas guerrilhas: de um lado, os habitantes das vilas tentam remover aquela “separação anti-natural”; de outro, a polícia e o exército de Botsuana empenham-se em fazer respeitar a estrutura e a demarcação da fronteira. Para ativistas dos direitos humanos, o muro representa uma separação inaceitável e uma anacrônica reedição do apartheid; ecologistas argumentam que ele é uma bizarra e danosa invenção, sob todos os aspectos. Enquanto isso, em diversos países africanos, procura-se delimitar parques transnacionais. Por exemplo, no delta do rio Okawango, uma das mais ricas áreas de fauna, uma cerca impede o livre movimento e a reprodução dos animais, com notáveis conseqüências para o ambiente e a sobrevivência de espécies selvagens. Às acusações feitas pelo lado oposto, o governo de Gaborone responde que não quer prejudicar direitos humanos e nem limitar a circulação dos trabalhadores. “Temos muitos postos de fronteira que permitem a passagem para quem pede um visto de permanência para trabalhar”, explica o porta-voz do ministro das relações exteriores, Clifford Maribe, que continua: “a barreira serve apenas para salvaguardar os rebanhos e para evitar contatos com rezes não controladas”. De fato, há um ano, uma zoonose obrigou os criadores a sacrificar quase quatro mil cabeças de gado. Há, porém, que se admitir que o verdadeiro (e inconfessado) motivo da barreira de segurança tem apenas um nome: aids. A pandemia assusta as autoridades de Botsuana, porque cerca de metade dos imigrantes que chegam do Zimbábue são soropositivos. Eles são uma ameaça para a sociedade local, pois a assistência médica a um número cada vez maior de imigrantes doentes constitui, para o país, um progressivo e cada vez mais grave problema econômico. As autoridades têm plena consciência que a prevenção e o tratamento da doença, que atinge milhões de vítimas em todo o continente, inutilizará, se nada for feito em breve tempo, os lucros com o comércio de diamantes e com a zootecnia. MUROS
POR TODO LADO Vamos relembrar alguns exemplos:
Israel levanta a “barreira de segurança”, garante o domínio sobre o território palestino, mas torna difícil a autonomia árabe na região. Duas mil milhas de arame farpado e muros impedem, ou tentam impedir, a passagem de latinos clandestinos do México para os Estados Unidos. Em Chipre, a “linha verde” separa a parte ocupada pelos turcos, em 1974, da área grega que, no ano passado, passou a fazer parte da União Européia. Cimento e arame farpado separam ideologicamente as duas Coréias, no paralelo 38o, desde 1953. A tensão política entre a Índia e o Paquistão levantou, na Cachemira, a divisa, uma longa cerca metálica de arame farpado, eletrificada. Dezenas de muros separam quarteirões cristãos de protestantes na região de Ulster, principalmente em Belfast, na Irlanda do Norte. Ceuta e Melilla, cidades autônomas espanholas em Marrocos, são os confins entre a União Européia e o mundo árabe. Uma cerca de arame farpado com sensores impede a passagem árabe. Tudo bem: derrubamos o muro de Berlim, mas será que ficamos mais próximos?
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