Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

 

por Orlando Hoyos

a ocasião, poucos moçambicanos estavam preparados a dirigir o país, pois raros eram os diplomas universitários. Então, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), que abrigava várias tendências durante a guerra de libertação, assumiu o poder e se tornou um movimento marxista-leninista. Ela perseguiu autoridades tradicionais, religiões tradicionais e outras, para limpar todo rastro de ideologias importadas, sem se dar conta que o marxismo também fora importado. Moçambique aderiu à economia socialista, imposta, menosprezando a cultura do povo. O ateísmo foi implantado.

Em conseqüência, surge uma contra-revolução, comandada pela Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), com o apoio da vizinha África do Sul. Quando seus dirigentes se deram conta de que o governo do país aliado era racista, afastaram-se lentamente. A RENAMO aproveitou-se da insatisfação popular e instaurou a guerra de guerrilhas, que se espalhou por todo o país, excetuadas as capitais regionais. O objetivo era restabelecer uma democracia multipartidária, valorizando o “ethos” cultural, pois o povo queria viver sua cultura.

Até dissidentes da FRELIMO ansiavam por um país livre, não marxista, com sistema não imposto. Desta forma, o país não viveu sua independência, nem a alegria de ser ele mesmo, pois logo teve início uma sangrenta guerra civil. Por isso, muitos não distinguiam revolução de independência. O conflito armado se estabeleceu entre o exército e a guerrilha, que se refugiou no povo, o eterno perdedor, porque “quando elefantes lutam, quem sofre é a grama”, diz o provérbio africano.

A guerrilha pressionava a FRELIMO a reconhecer os outros partidos e a organizar eleições livres e democráticas, mas não se defrontava formalmente contra o exército. Propunha-se a desestabilizar o país. Seus guerrilheiros queimavam estabelecimentos rurais, destruíam a rede comercial, minando estradas e incendiando veículos, postos de saúde e escolas. Isso provocou a fuga de 9 milhões de camponeses para as cidades, abandonando suas terras. Um milhão e meio de pessoas refugiaram-se fora do país. Veio a fome, pois ninguém cultivava nada.


Grupo de religiosas com seu bispo

Fala-se de um milhão de mortos. A Igreja também teve seus mártires. Entre padres estrangeiros e do clero local, morreram uns 25, e dezenas de catequistas. A Igreja pedia diálogo, mas o exército não reconhecia a guerrilha: “Dialogar com quem? Com macacos, com elefantes?

Não há uma força organizada como nós, somos o partido e o poder, a autoridade”. Os bispos insistiam: “Se há mortos, alguém os está matando”. A FRELIMO admitia apenas a solução militar, matar o oponente, a quem definia como terrorista sem rosto. Havia violência, originada pelo próprio poder, pela FRELIMO, nas áreas de reeducação, algo como campos de extermínio.

A IGREJA NÃO SE CALA

A Igreja insistia na necessidade do diálogo, sem medo, com coragem e coerência evangélica, através de documentos, mas era considerada terrorista e, portanto, perseguida. O papel da Igreja católica foi preponderante desde o princípio, organizando encontros secretos, arriscados, pois o governo desconhecia o paradeiro dos líderes da RENAMO. A Conferência Episcopal os assumiu de primeira mão, fez contatos fora de Moçambique, nos EUA, em Portugal, no Quênia, onde a RENAMO tinha apoio.

Roma também se mobilizou, com o apoio logístico da Comunidade de Santo Egídio. A Igreja acompanhou também pastoralmente, como tarefa específica, conscientizando o povo sobre o processo de paz. Ainda antes das conversações de Roma, houve um trabalho intenso de formação dos “integradores sociais”. Esses líderes organizavam encontros nacionais, que logo eram disseminados pelas dioceses e paróquias. Formou-se uma rede no país todo, preocupada também com o catecumenato, a catequese e as homilias.

Os “integradores sociais”, como a expressão diz, tinham a missão de integrar a sociedade, até então desfeita, reconstruir o tecido social, reconduzir refugiados às suas casas, reagrupar as pessoas nas aldeias, reconstruir tudo. Sua formação contemplava vários blocos: antropológico-cultural, convivência, bíblica e pastoral- catequética. Os cursos abriam-se também aos não-católicos. A maioria era leiga. Nós, missionários jovens pós-conciliares, também ansiávamos por uma Igreja mais simples e criticávamos as grandes estruturas.

Os Padres Brancos, por exemplo, foram mais radicais. Deixaram Moçambique como protesto à hierarquia portuguesa colonial. Nós, da Consolata, optamos pela presença, para não piorar a situação. Depois do Concílio, tivemos intensos cursos de atualização com especialistas. Colocamos em prática algumas idéias, por exemplo, restabelecendo o catecumenato de adultos, aliás um passo importantíssimo. Dele nasceram os centros catequéticos, em que os leigos assumiram plenamente a pastoral.

Com este clima, chega-se à independência, aceitando seus aspectos positivos. A Igreja assumiu as críticas da FRELIMO. Houve a purificação das idéias, aceitas pela primeira Assembléia Nacional de Pastoral, em 1977, com representação majoritária de leigos. O governo utilizou a crítica ideológica do marxismo-leninismo ao fato religioso, pois não hostilizava diretamente a Igreja católica; perseguia também protestantes, anglicanos, muçulmanos, etc. Mas a presença missionária, apesar dos riscos de morte, foi fundamental em tempo de guerra.

O IMPACTO DA REVOLUÇÃO NA IGREJA

Ficamos sem nenhum colégio, ou edifício de nossa propriedade. A Igreja perdeu tudo com a revolução e então, nos encontramos em uma Igreja pobre, purificada. A Igreja estava, finalmente, nas mãos do povo. Nasceu a Igreja de pequenas comunidades cristãs, ministerial; acabou-se a figura piramidal do catequista quase-padre e nasceu uma Igreja-fermento. Uma Igreja auto-suficiente economicamente, que não depende do auxílio externo, que faz o que pode e segue adiante.

Uma Igreja como sonhávamos, os que acreditávamos na renovação conciliar. A parte negativa da revolução é a intransigência, a violação dos direitos fundamentais da pessoa, os campos de reeducação, verdadeiros campos de extermínio, como os “gulags”, para onde eram levados os que não aceitavam a revolução. Moçambique agora está em paz, finalmente. Tanto a FRELIMO como a RENAMO, ambos com representação no parlamento, sabem que não se pode mais voltar às armas.

Fonte: Dimensión misionera – set. 2004

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