Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

A difícil reconstrução da África do Sul

Márcio Aguiar

No dia 2 de junho, houve eleições e venceu o partido de Nelson Mandela, com uma maioria absoluta. Isso era previsível mas o resultado superou qualquer previsão otimista em favor de Thabo Mbeki, candidato do carismático líder. Mandela, que uma revista definiu como santo, serviu para dar um grande passo e despertar a consciência crítica da África do Sul, submersa em graves problemas estruturais, sociais e raciais. Algumas melhorias foram feitas e outras iniciadas, mas o país está longe de se tornar uma potência econômica, o que poderá ainda ser pelos recursos naturais e humanos que possui. Além dos problemas de um país onde as etnias, as tribos e o nacionalismo são fatores de divisão entre o povo, a economia ainda está, em sua maior parte, nas mãos de brancos que querem manter seus privilégios, considerados normais durante os longos anos em que perdurou o apartheid. Muitos profissionais brancos e fazendeiros (mais de 25 mil), duvidando da sinceridade do governo Mandela e de sua capacidade de manter em paz um povo tão maltratado no passado, já deixaram o país. Para eles, o futuro da África do Sul é incerto.

Superfície: 1.221.037 Km2
Religião: cristianismo: 68% (9% católicos); religiões tradicionais: 31% e islã: 1%
População: 42.393.000 (49% nas cidades
Divida externa: 23,6 bilhões de dólares (556 dólares per capita)

Etnias: 76% de origem africana,

13% europeus, 2,5% asiáticos, 8,5% mestiços
Alfabetização: 82%
Línguas: africâner, inglês e línguas indígenas
Recurso naturais: ouro, diamantes, manganês, carvão e agropecuária.

Política habitacional

Entre 1994 e 1999, foram construídas, segundo dados governamentais, 430 mil casas. Suspeita-se de que os números sejam exagerados e distantes do milhão de moradias que o governo Mandela prometera ao tomar posse. A falta de moradia e o desemprego são os pontos fracos do milagre gada da eletricidade e da água potável em muitas aldeias; deve-se também reconhecer que a construção de uma adequada estrutura de serviços requer muitos anos e muitos investimentos e não podia ser tarefa somente dos quatro anos do governo Mandel

As feridas do apartheid

Após sua posse, Nelson Mandela constituiu uma Comissão para a verdade e a reconciliação, a fim de sanar as feridas não resolvidas e confiou a Comissão ao arcebispo anglicano Desmond Tutu, personagem íntegro, contando com sua sagacidade e imparcialidade. Muitas respostas já foram dadas, em particular às famílias que queriam notícias de parentes desaparecidos, mas correu-se o risco de provocar ressentimentos entre os brancos que nada fizeram além de viver o apartheid que era a norma no país. Todos, alguns mais outros menos, foram pelo menos coniventes com os desmandos e os horrores do regime, mas nem todos foram criminosos. Dolorosa foi a inquirição de Winnie Mandela, ex-mulher de Nelson Mandela, acusada de mandar assassinar negros de facções rivais. Acusa-se ainda a Comissão de fazer uma caça às bruxas, deixando de fora casos que envolviam o poder, como os ex- chefes do governo branco e da guerrilha. A Comissão, que ainda não terminou seus trabalhos, promete levar adiante sua ação de investigação e processar os responsáveis, o que se revela bastante difícil.

Igrejas e governo

urante o antigo regime, era até fácil o acordo entre as Igrejas, porque ou eram a favor do apartheid, como a Igreja holandesa reformada, ou contra. O adversário era bem individualizado: o racismo dos brancos e a revolta dos negros. Com a posse do governo Mandela, que parecia facilitar o entendimento, aconteceu o contrário: todos estão de acordo com as iniciativas que promovem a reconciliação e a reconstrução, mas difícil é estabelecer uma unidade de trabalho e fazer uma crítica construtiva ao governo. Este, normalmente, reage com mal-estar, quando as Igrejas se manifestam contra, como no caso do posicionamento assumido pelo Conselho Ecumênico das Igrejas e pela Conferência Episcopal da Igreja Católica, quando membros do governo quiseram impedir a publicação do documento da Comissão para a verdade e a reconciliação. Outra crítica que aborreceu o governo foi aquela contra a política econômica, considerada inadequada para eliminar a miséria e aumentar a oferta de empregos. Há também divisões internas entre as Igrejas, por causa de questões importantes da vida social como a política agrária, o ressarcimento das vítimas do racismo, o homossexualismo, o aborto e outros temas. Tudo isso, porém, não impede que as Igrejas se manifestem diante de fatos graves: em outubro, por exemplo, um Summit Moral reuniu todas as representações das Igrejas, os movimentos religiosos existentes no país e os responsáveis dos partidos com o objetivo de encontrar soluções para a crise moral do país que se expressa nos altos números de violência, criminalidade e corrupção. Por parte das Igrejas surgiu a proposta de que cada cristão oferecesse o salário de um dia de trabalho para ajudar a criar novos empregos. Os políticos presentes subscreveram um termo em que se comprometiam com os direitos dos cidadãos, sobretudo os que dizem respeito à vida, à propriedade, ao meio ambiente e à luta contra a pobreza. Todavia, as diferentes posturas das Igrejas dificultam as ações comuns que poderiam ser mais eficientes: Igrejas de mesma denominação freqüentadas por mestiços não se encontram com as dos negros e dos brancos e até as Igrejas católicas do centro da cidade têm dificuldades em manter comunhão com paróquias das periferias-dormitório, freqüentadas por negros. Essa separação racial entre as denominações eclesiais foi discutida intensamente no sínodo da Igreja holandesa reformada, em dezembro, mas não obteve o consenso para formar uma unidade eclesial.

Escolas: retorna o apartheid

Numa recente pesquisa, aparece uma triste realidade: os sul-africanos continuam racistas.
De várias partes da sociedade, houve um explícito pedido de voltar à segurança dos tempos do apartheid e até mesmos às escolas separadas para brancos e negros.
Em algumas escolas, houve até confrontos físicos entre os estudantes e até entre os pais.
Embora não se possa dizer que o ambiente escolar representa o universo social do país, não se pode também negar que os adolescente refletem o pensamentos dos pais. O governo aprovou uma lei que impõe a "proporção racial" nas salas de aula e nas empresas particulares, mas não conseguiu o que desejava: superar a divisão racial. Após cinco anos, os sul-africanos não conseguem ainda conviver pacificamente.

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