Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

e. Darci Augusto Alves nasceu no dia 05 de dezembro de 1942, em Chácara -MG, diocese de Juiz de Fora. Alguns anos depois, com seus pais, mudou-se para o interior do estado do Paraná. De família muito religiosa, Darci fez um período de discernimento vocacional com os padres do PIME e, em 1962, entrou no seminário de Porecatú-PR, onde se tornou Irmão missionário.

Em Assis-SP, cursou a faculdade de Pedagogia, na área de orientação educacional e administração escolar. Já formado, exerceu a função de vicediretor e orientador pedagógico no colégio diocesano de Assis. Entretanto, sempre alimentava o desejo de servir a Igreja em terras de missão e concretizou seu sonho em 1974, ao ser destinado à missão do PIME no Amapá, onde, por um bom tempo, exerceu seu apostolado visitando as comunidades das Ilhas da Paróquia de Mazagão.

Alguns anos depois, querendo ser padre missionário, o então Ir. Darci reiniciou os estudos no seminário de Londrina-PR e, em 1980, teve o privilégio de ser ordenado padre pelo saudoso Papa João Paulo II, quando de sua visita ao Brasil.

UMA ANTIGA PAIXÃO: ÁFRICA

Ao completar 41 anos de vida, Pe. Darci aceitou o desafio de ir para a Guiné-Bissau, na África Ocidental. Era o que ele mais queria: servir a Igreja nas missões além-fronteiras. Pe. Darci abriu as portas para outros missionários brasileiros do PIME que posteriormente foram destinados para a África, Ásia e Europa.


Pe. Darci juntamente com os "homens grandes"

Durante seus 12 anos de vida missionária, na Guiné-Bissau, ele investiu suas forças e criatividade na formação de catequistas nativos.

Para isso preparou diversos subsídios catequéticos, encarnados na realidade local, e fundou uma escola polivalente para a formação dos catequistas, dando formação catequética, litúrgica, como também noções de agricultura, higiene e saúde.

Seu objetivo era promover a pessoa humana, restituindo-lhe sua dignidade, e responsabilizando os próprios africanos pela difusão inculturada da mensagem do Evangelho.

JEITO MINEIRO DE SER

Apesar de suas andanças pelo mundo e o contato com outras culturas, Pe. Darci nunca perdeu o seu jeito mineiro de ser. Sua espiritualidade era enraizada na devoção popular. Numa roda de amigos, sempre tinha uma história ou piada para contar e, após dez anos de África, conseguia entreter as pessoas por horas a fio, contando suas aventuras missionárias e discursando sobre a cultura africana que tanto apreciava.

Como um bom mineiro, Pe. Darci nunca perdeu a mania de chamar de “trem” tudo quanto é coisa. No entanto, parece também nunca ter perdido o “trem da vida”: começou a estudar no seminário aos 20 anos, foi ordenado padre missionário com 38 anos, destinado para a África já com 41 anos e, aos 63 anos, veio a falecer.

Por esta cronologia, parece que o Pe. Darci sempre correu atrás do tempo, mas, na reta final, no seu encontro com o Pai, ele antecipou-se. Já frágil pela doença, voltou ao Brasil no dia 21 de maio de 2005, com a idéia de celebrar o seu jubileu de prata, festejar os 80 anos de vida da sua mãe, fazer um bom tratamento médico e retornar à África em agosto próximo.

Para surpresa de todos nós, faleceu no dia 01 de junho e, certamente, sua festa do jubileu (02 de julho) foi celebrada com muita festa no céu.

MEMÓRIA PÓSTUMA

Na cultura tradicional africana, o termômetro para definir o quanto uma pessoa foi amada e querida, é definida pela intensidade da celebração do rito fúnebre. Foi assim que Dom Pedro Zilli - PIME, bispo brasileiro na Guiné-Bissau, me escreveu: “Diante do conhecimento da sua morte, as pessoas vão externando todo o apreço que nutriam por ele. Uns dizem: ‘perdemos um amigo’; outros: ‘Deus nos levou um catequista, um pastor, um missionário!’”.

O esplendor da manifestação sentimental do povo guineense, em relação ao Pe. Darci, foi expresso durante a missa de 7.º dia, presidida pelos dois bispos do país, Dom José Camnâte e Dom Pedro Zilli, e concelebrada pelos missionários e o clero local.

A cerimônia foi honrada com a presença do Presidente da República, sua esposa, alguns ministros do governo e deputados dos vários partidos. Uma surpreendente multidão de fiéis e admiradores lotou a catedral e, ao som de tambores, danças e cantos, louvaram e agradeceram a Deus pelos doze anos de vida que o Pe. Darci doou ao povo guineense.

Repouse em paz Pe. Darci, e interceda junto do Pai da messe para que suscite a vocação missionária no coração de muitos jovens ardorosos para que continuem sua bonita missão onde Jesus ainda não é conhecido.

Carta

No período em que o Pe. Darci esteve na Itália, preparando-se para a sua segunda missão na África, assim escrevia ao Pe. Roberto, companheiro no Jornal Missão Jovem.

Roma, 12 de março de 2002

Caríssimo Pe. Roberto,

Olha eu aí de novo. O meu silêncio nestes dias tem o seu sentido. Estava me adaptando na Cidade Eterna, o que não é fácil para um caipira como eu que nasci no interior e nele me criei, onde tudo é simples e natural. Mas fazer o quê!? O jeito é fazer como a pipoca na panela, pular e dançar.

Aqui tudo é formal. Aperta botão de um lado, pergunta daqui, pergunta dali. Esse primeiro mundo é uma verdadeira escravidão; você não tem liberdade nem para ir ao banheiro, deve pedir a senha para entrar lá. Este tipo de vida não faz o meu gênero.

Estou bem. Já comecei o meu curso na Urbaniana, sobre a história da Catequese na África. Estou gostando muito e certamente irá me ajudar na minha nova Missão. Estou aproveitando esse tempo para me encontrar com Deus e comigo mesmo.

Falei muito aos jovens de Deus. Nesse tempo estou falando a Deus dos jovens. É necessário contemplar a Deus para se entender a humanidade. Estou aproveitando o tempo para preparar a minha catequese em vista da Guiné... Agradeço aos superiores por esta oportunidade.

Um abraço ao Dante, ao Pe. Paulo e a todos os jovens e adolescentes. A você, o meu abraço em Cristo.

Pe. Darci

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