Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Religiões - Tradicionais

O MUNDO RELIGIOSO DOS INDÍGENAS AMERICANOS

Ruinas de Machu Pichu, no Peru

Há mais de 20 mil anos (alguns falam em 50 mil) chegaram os primeiros habitantes do continente americano. Eram mongóis aqui chegados cruzando o oceano Pacífico por via marítima ou atravessando o estreito de Behring que, em épocas glaciais, unia a Ásia ao Alasca.

Esses migrantes deram origem aos inúmeros povos pré-colombianos – só no Brasil 215 nações e 170 línguas –, com sua riqueza cultural e religiosa.

O mundo religioso dos indígenas “primitivos”

Assumimos o termo “primitivo” para indicar os indígenas caçadores, pescadores, coletores, nômades e semi-nômades, distinguindo-os dos povos urbanizados astecas, chibchas, maias e incas. Inicialmente, os primitivos habitantes da América do Sul se concentraram nas áreas verdes das cabeceiras dos grandes rios e, aos poucos, se espalharam pelo resto do continente.

Por serem nômades ou semi-nômades, os indígenas brasileiros não construíram templos ou locais de culto. O mundo é seu templo.

São animistas: tudo tem alma, Deus está em tudo, na árvore, na pedra, no animal, nas pessoas, no raio, no trovão, no riacho, na lagoa. Toda a natureza e seus fenômenos estão povoados de espíritos. Não há lugar ou pessoa que não sejam sagrados, não há o dualismo sagrado-profano.

Os xamãs, sacerdotes indígenas

O xamanismo é o elemento principal da religião dos indígenas nômades e que revela sua proveniência asiática. Os antropólogos encontraram semelhanças impressionantes entre o xamanismo americano e o da Austrália, África, Ásia e Europa.

O xamã é a figura central, mais conhecido como pajé, ao mesmo tempo sacerdote, curandeiro, conselheiro, vidente, feiticeiro. Seu poder se manifesta em êxtases, através de sonhos, alucinações, consumo de bebidas sagradas.

O xamã se crê capaz de curar doenças, agir sobre a fertilidade da terra e das plantas, a fecundidade dos seres humanos e dos animais, aconselhar, modificar as condições atmosféricas.

O xamã domina os espíritos com sua força inspirada, mostrando que podem ser influenciados e assim tornarem-se favoráveis ao ser humano.

O xamã faz o indígena ultrapassar os sentidos e o conduz ao mundo das almas, das forças sobrenaturais e lhe recorda a vida além da morte. Os xamãs-pajés exercem três funções: profetas, curandeiros e vingadores.

• Como profetas (premonitores), prevêm os acontecimentos, a chegada de estranhos, a sorte das pessoas, a melhor ocasião para as guerras.

• Como curandeiros, são especializados em receitar remédios da natureza, realizar rituais de cura, atrair as bênçãos para os doentes. Os cientistas, que hoje buscam o segredo medicinal de plantas, estão atrasados em relação aos indígenas, que conhecem o segredo da natureza há séculos.

• Como vingadores, aceitam trabalhos para destruir inimigos, fazer o mal a alguém, aplicar feitiços.

Deus, o Ser supremo

Os indígenas acreditavam e acreditam num Deus supremo que recebe vários nomes, conforme o povo.

Às vezes é identificado com o sol. Entre os povos agricultores, sob influência do matriarcado, a lua ocupa lugar importante, sendo chamada de Avó ou Mãe do grande Espírito. Muito rica e diversificada é a concepção do Ser supremo. Alguns exemplos:

é o grande Pai que criou o mundo e a primeira mulher (guaranis apapocuva);

é um Deus onisciente e herói civilizador que ensinou aos homens a caça e a agricultura (tupis mundicuru);

é um Ser superior que criou o céu, a terra, os pássaros, os animais (tupinambás);

é um Ser superior do qual descendem três grandes divindades: Guaraci-o sol, criador dos homens, Jaci-a lua, criadora dos vegetais, e Ruda-o amor, guerreiro que reside nas nuvens (tupis);

é a Deusa-mãe, virgem, com cauda de serpente, símbolo do tempo e a raiz de todas as coisas, não nasce nem morre, mas se renova eternamente (caraíba).

Não há um culto determinado para o Deus supremo, e muitas vezes é considerado ocioso, retirado definitivamente do mundo, desinteressado das criaturas após a criação.

Há a crença em espíritos intermediários, heróis míticos, que intervém na vida dos homens e do pajé. São filhos de Deus, em forma de pessoas, animais, astros, plantas, fundadores dos costumes humanos, das rivalidades entre as tribos, heróis que ensinaram a agricultura, a caça e a pesca. Podem estar do lado do homem ou serem seus inimigos. O pajé tem autoridade para atrair sua benevolência.

Os indígenas são monoteístas, pois não confundem com Deus estes espíritos ou seres intermediários, como pensavam os brancos conquistadores.

O ser humano no mundo indígena

A origem do ser humano, normalmente, não é atribuída ao Ser supremo. Geralmente é visto como saído do caos primitivo, tanto como surgindo da terra, das cavernas, ou criado por Deus mediante um animal, uma árvore ou terra amassada. Um herói antepassado o colocou em terra firme e ensinou-lhe a organização social e os meios de sobrevivência.

O homem é visto como parte do mundo, vivendo a mesma vida dos outros seres. É naturalmente feliz se vive segundo os costumes da tribo e em harmonia com a natureza. É leal com quem lhe pode ser útil e inimigo de quem lhe estorva o caminho.

Todos os povos ameríndios acreditam na vida após a morte, na sobrevivência do espírito. Esta realidade é explicada de três maneiras:

• o destino da alma numa sobrevivência feliz;

• a metempsicose, ou seja, a transformação da alma em outro ser;

• a transmigração: o morto renasce em outro membro da tribo.

Após a morte, as almas não sobem aos céus, mas vivem na terra, nos lugares em que os corpos foram enterrados.

Entre os canibais, o inimigo a ser devorado também era sagrado: comer suas vísceras, beber seu sangue, era possuir sua alma. E o prisioneiro gostava de ser morto e comido, pois para ele o estômago humano era o melhor lugar de repouso para um guerreiro.

As práticas funerárias são diversificadas de tribo a tribo. Os mortos podem ser enterrados em posição fetal, ou numa cabana com seus bens. Na Amazônia era comum a ingestão das cinzas do morto por parentes e amigos. Algumas tribos conservavam um cadáver mumificado: tratava-se do primeiro chefe, a origem de sua história. Reverenciar esta múmia significava retomar o fio da história.

Índios Brasileiros

Ritos religiosos

Nos povos entregues à caça e à pesca domina a figura do xamã-pajé, que estabelece o contato entre as pessoas e o sobrenatural, e que age como profeta, conselheiro e curandeiro. Existiram:

Sacrifícios humanos, com canibalismo nos povos de cultura agrícola (iroqueses, aruaques, tupis).

Gritos de fecundidade: entre os de cultura agrária, havendo sacerdotes para a organização do culto que obedece aos ciclos da natureza (pueblos).

Gritos agrícolas e de caça: incluem danças com sentido orgiástico e oferta de bebidas inebriantes.

Gritos de iniciação ou de passagem: fundamentais na vida da tribo. Guiado por um sábio, o jovem é introduzido na vida social e religiosa, aprende a sobreviver e são-lhe revelados os segredos divinos.

Os ritos propriamente ditos muitas vezes se constituem de provas duríssimas e cruéis (jejuns, flagelações, lacerações, etc.), para testar, de modo concreto, a resistência do jovem que passará ao mundo adulto.

Grito do fumo: representa a comunicação com o mundo invisível e precede todo o ato importante, como uma prece ritual. Os povos indígenas não usavam as plantas alucinógenas como meio de fuga ou de evasão, mas como meio de comunicação com o mundo espiritual, ganhando confiança para enfrentar a vida.

São as assim chamadas “plantas dos deuses”, como a ayahuasca, yagé, caapi, natem dos povos amazônicos, cohoba dos ianomâmis, a coca dos aimarás). São servidas em cachimbos de fumar ou pela absorção pelo nariz do pó obtido pela moedura do vegetal ou como chá.

Danças: um componente inseparável dos povos nômades e semi-nômades. Elas são realizadas para saudar os deuses e os astros e servem para comemorar todos os acontecimentos sociais, como o casamento, a guerra, a morte. Cada ritmo tem um significado próprio e invoca a proteção das divindades para a vida da tribo. Há danças com máscaras, que representam os espíritos dos animais. É religiosidade e celebração da vida.

O Eldorado - a terra-sem-males

No decorrer dos tempos, percebe-se a migração-peregrinação dos tupis-guaranis em busca de uma terra sem males, um paraíso terrestre denominado pelo branco de Eldorado. Cada vez que a situação se torna calamitosa, sob o comando de um pajé ou de um profeta, empreendem a longa caminhada em busca desta terra-sem-mal.

É um lugar de abundância, onde o milho cresce sozinho e a flecha se dirige automaticamente à caça. Terra livre, sem leis nem governantes.

É a plenitude da liberdade, que foi prejudicada pelo poder de uns sobre outros. A única norma é caminhar adiante sem temor, no sentido de alcançar o objetivo.

Após 500 anos do “encontro” dos cristãos com os indígenas, permanece o “desencontro”, fruto da incapacidade do europeu de dialogar com o diferente, de ver fé verdadeira em quem ainda não chegou ao conhecimento de Jesus Cristo. A Igreja primitiva conseguiu realizar esse encontro com o mundo greco-romano. A nós ainda permanece o desafio, em parte realizado pelo esforço de generosos missionários.

Pe. José Artulino Besen

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