Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Religiões afro-brasileiras

Após ter apresentado o universo religioso das tradições africanas, apresentaremos agora as religiões-brasileiras

A questão do surgimento deste grupo religioso no Brasil é, ainda hoje, sujeita a controvérsia, mesmo entre os umbandistas.

Alguns insistem em afirmar a descendência desta religião das formas africanas introduzidas no Brasil nos anos da escravidão. Outros buscam suas raízes no Antigo Egito ou no Extremo Oriente.

Outros, porém, não se preocupam tanto em dizer quando surgiu esta religião, mas em identificar as várias tradições religiosas que confluíram na formação da Umbanda.

A maioria dos estudiosos deste fenômeno concorda em dizer que houve uma fusão entre a Macumba e o Espiritismo de Allan Kardec. Este processo parece ter começado nos anos 1920 ou 1930. Um grupo de população branca e pobre que já tinha tido uma ligação com o Espiritismo, cansado com o extremo intelectualismo deste último, procurou se aproximar da macumba e de suas formas vibrantes. Surgiu assim um conjunto religioso que se denominou “Umbanda”.

Outros elementos religiosos foram se incorporando à Umbanda: a feitiçaria, as práticas mágicas e o Catolicismo, que foi se associando, a partir do período da escravidão, a algumas religiões africanas.

Quando uma pessoa procura a Umbanda, é recebida por um grupo de pessoas com as quais é fácil relacionar-se. Trata-se, em geral, de um grupo relativamente pequeno. Logo de início se estabelece uma intensa ligação afetiva.

A figura da mãe ou do pai de santo é extremamente acolhedora, transmitindo muita segurança. A pessoa se sente em casa.

O pequeno grupo ajuda a reconstruir os laços que foram quebrados de diferentes maneiras, muitas vezes por causa de uma migração forçada, vencendo assim o anonimato e a massificação que constituem uma grande ameaça para qualquer um.

Nas “Umbandas” (em si a Umbanda é uma constelação de muitos terreiros diversificados) são usados símbolos e linguagem bem conhecidos pelo povo.

Nasce portanto uma nova e gratificante experiência de relações entre pessoas: todos se entendem logo.

Isto não quer dizer que tudo seja paz no mundo da Umbanda. Há “guerra de santos e de orixás” e há também muitas tensões no relacionamento.

O processo pelo qual surge um novo terreiro é, muitas vezes, causado por divisões internas, por rivalidades e desentendimentos.

Cosmovisão é uma palavra que se refere à maneira como alguém vê o mundo. Inclui também as respostas que são dadas aos grandes porquês da vida humana.

Eis um caso concreto que ajuda a entender a cosmovisão da Umbanda. Dona Joana, afetada por uma doença nervosa, depois de ter procurado inutilmente médicos e psicólogos, é convidada a visitar um terreiro. Seu problema de loucura é logo detectado: trata-se de sete encostos que atrapalham sua vida.

O que foi que aconteceu e que deve ser atentamente analisado? Foi dada uma explicação concreta. Estabeleceu-se uma ordem no caos da cabeça da mulher. Dona Joana entendeu a explicação porque foi explicada com elementos que fazem parte do dia-a-dia das pessoas humildes.

A sintonia com a maneira de pensar e de falar dos fiéis, e a rapidez com que é feito o diagnóstico tornam a visão do mundo extremamente eficaz. Esta rapidez de interpretação traz alívio, esclarece o problema e pode ser um começo de cura.

O mundo da Umbanda é povoado de espíritos e entidades espirituais que regulam a vida quotidiana e permitem que o fiel se relacione facilmente com o universo das realidades sagradas.

Esta maneira de ver o mundo é facilmente encontrada em toda forma de religiosidade popular. Os católicos de origem rural tem seu mundo povoado de almas e santos que interferem constantemente na vida diária. Historicamente houve uma associação entre entidades espirituais da Umbanda e os santos de devoção católicos.

A Umbanda, portanto, mergulha no tipo de crença religiosa que revela a interferência do espiritual sobre o cotidiano: é o mundo espiritual que regula e harmoniza as coisas.

A experiência religiosa de contato com a divindade acontece em dois momentos.

  1. No começo, quando o adepto tem a impressão de estar sendo chamado por um determinado espírito.
  2. Durante o momento ritual, quando a entidade continua tomando conta da pessoa.

No começo

Cada pai de santo ou filho de santo conta que no começo de sua iniciação houve uma experiência muito intensa de contato com a divindade. Quase sempre foi motivada por um sofrimento intensíssimo e sem uma explicação plausível.

Este sofrimento inicial é interpretado como condicionado ou produzido por forças de outra ordem que a sociedade, muitas vezes, não compreende e as caracteriza como manifestação da loucura.

A pessoa atingida por esta experiência procura resistir e não quer se entregar a esta possível explicação. Esta resistência e sua persistência, porém, indicam a persistência do caminho a ser seguido.

Esta força provocadora, que quase sempre atinge fisicamente o fiel, é um sinal inequívoco de uma missão que deve ser cumprida.

No fim a aceitação acarreta uma atitude de alívio e comporta uma missão no seio da comunidade. Um pai de santo conta: “Não vou me importar com aquilo que as pessoas pensem ou digam.

O suficiente é que eu saiba o que eu estou fazendo.

Porque eu não quero nada para prejudicar ninguém. Se for para ajudar a aliviar a dor dos meus semelhantes, eu aceito de bom gosto.

Eu aceito também para aliviar a minha dor.”

No ritual

Há momentos em que a experiência mística é vivenciada em toda a sua intensidade. Acontece durante o momento ritual da descida das entidades. Usualmente, este momento é chamado de “transe”. A entidade espiritual toma conta do sujeito, o qual lhe empresta sua própria pessoa. Há um contato direto com as divindades.

O êxtase, a descida dos espíritos e a possessão recompõem a unidade com o sagrado, aliviam o fiel crente e permite que a cura se realize e que a situação problemática seja sanada.

Toda religião tem conseqüências éticas ou morais. A ética é um código de valores diretamente ligada à visão de mundo.

A Umbanda sustenta-se num universo povoado por espíritos e entidades que regulam o ritmo da vida cotidiana. A relação que se estabelece entre pessoas e deuses orienta, também, o comportamento dos seres humanos entre si.

a caridade

O elemento que permite uma rearticulação de forças antagônicas é a caridade. É ela que possibilita uma harmonia entre opostos. É um elo imprescindível de equilíbrio e inclusão. Daí a ênfase dada na Umbanda à caridade.

Diante de alguns que afirmam ser a Umbanda desprovida de um código moral, porque tudo é tolerado e permitido, parece-nos que a caridade seja o fundamento ético equilibrador de relações conflituosas na ordem do espiritual e do cotidiano.

Fazer obrigações, fazer o bem a quem precisa ajuda a controlar o estado de ansiedade, proporciona um alívio e pode permitir a cura.

Toda religião tem um ritual, simples ou complexo. A Umbanda é um movimento religioso centrado quase que exclusivamente sobre o ritual.

O grupo religioso se encontra e se reúne para celebrar os momentos da vida. O primeiro contato que um novo adepto tem com o grupo é sempre durante a sessão ritual.

A cosmovisão é apreendida durante o rito. É aí que se vê, se experimenta e se assume uma particular maneira de ver a realidade. Este saber é fruto não tanto de explicações teóricas e de doutrinas, mas de uma aprendizagem por contaminação.

Também a experiência mística é vivida em toda sua intensidade durante o momento ritual. As entidades espirituais descem nas pessoas que fazem parte do grupo religioso e que estão participando do ritual.

Por último, também, a prática da caridade, como momento ético privilegiado, dá-se principalmente durante o momento ritual. É durante este momento que os espíritos descem para trabalhar e cumprir sua missão.

Praticam a caridade na terra, mitigando os sofrimentos dos consulentes e aliviando os problemas das pessoas. Os pretos velhos e os caboclos sugerem que a dor não pode ser entendida como algo de negativo, mas como purificação.

Pe. Giorgio Paleari - P.I.M.E.

1. Por que uma pessoa, quando entra num terreiro de Umbanda, sente-se em casa?

2. Como acontece a experiência religiosa na Umbanda?

3. Qual a importância da prática da caridade na Umbanda?

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