Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Missão
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O testemunho desta incansável lutadora é exemplo e inspiração para uma reflexão sobre o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: Fraternidade e povos indígenas.
O livro Meu nome é Rigoberta Menchú, no qual a protagonista narra o massacre de sua família e de seu povo maia, tornou famosa a resistência dos indígenas à ditadura da Guatemala. Ela, que andou pelo mundo fazendo conhecer e abraçar a causa de seu povo, em 1992 recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Recentemente, num novo livro, A menina de Chimel: fábula verdadeira na terra dos Maias, revela que seu nome significava Dia de festa, mas o funcionário do cartório colocou o nome do santo do dia.
Rigoberta afirma que quando menina em Chimel vivíamos
em harmonia com a natureza, o rio nos divertia e os animais nos davam
comida e faziam companhia, as montanhas nos protegiam e a terra nos dava
os frutos de seu seio.
Várias vezes ela denunciou o sistema escravagista das grandes plantações, onde os índios eram explorados. Um dos irmãos morreu por envenenamento de agrotóxicos. Outro, de dois anos, morreu por desnutrição e no dia seguinte ao enterro seus pais foram despedidos por terem faltado ao trabalho no dia anterior. Aprendeu sozinha o espanhol aos dez anos, pois em casa falava-se somente a língua maia. Aos 14 anos, Rigoberta foi trabalhar como empregada doméstica na Cidade da Guatemala, numa casa onde o cachorro comia carne e arroz e nós empregados devíamos nos satisfazer com um pouco de feijão e algumas tortillas amanhecidas. Tratavam-nos pior do que cachorro... e até pretendiam que fôssemos objetos de prazer para os filhinhos de papai.
A atividade política de Rigoberta começou quando era catequista e líder de organizações pela defesa dos direi tos humanos e pela promoção da mulher indígena. Praticamente toda a família de Rigoberta se envolveu na luta dos indígenas guatemaltecos. Vejamos: O pai: Catequista e líder comunitário, foi preso em 1977 acusado de ser um agitador político e por participar do grupo não-armado CUC (Comitê de Unidade Camponesa). Morreu em 1979, com mais 36, num incêndio provocado pelas forças de segurança quando um grupo de indígenas ocupou a embaixada da Espanha. Um irmão: na época com 16 anos, foi torturado pelos soldados em 1979 e queimado em praça pública. A mãe: Após ser seqüestrada e violentada, levaram-na para fora do povoado para morrer e não permitram a aproximação de ninguém. Duas irmãs: Fugiram para as montanhas e uniram-se à guerrilha. |
No início dos anos 80, aproximadamente 50 mil pessoas, em grande parte índios, foram assassinados. O exército usou a estratégia de queimar a terra, ou seja, povoados inteiros foram incendiados. Muitos morreram e outros foram para o exílio, especialmente para o México. Ela própria, devido às perseguições e ameaças de morte, fugiu para o México. De lá, falou e lutou em nome de todos os indígenas da América Latina. Em 1986 foi trabalhar na ONU (Organizações das Nações Unidas), como membro do Comissariado para os Refugiados e da Comissão para as Populações Indígenas. Em 1992, o Comitê para o Nobel declarou: Rigoberta é um símbolo vivo de paz e de reconciliação étnica, cultural, justiça social, para o seu país, para o continente americano e para todo o mundo.
Entrevista com Rigoberta, heróica lutadora pelos direitos humanos do seu povo. Rigoberta, por que você escreveu esta fábula verdadeira sobre seu povo? Para lembrar o tempo mais belo de minha vida, os contos dos avós e o exemplo de minha mãe. O que narro no livro é história autêntica mesclada com a mitologia maia, à qual devo muito de minha espiritualidade. Minha vida não é só violência, pois no início, em Chimel, respirei grande serenidade. Como estão agora as crianças de lá? Em minha terra ficaram só 14 famílias. Há dois anos, com a ajuda de amigos, abrimos a primeira escola com 25 alunos. A aldeia está praticamente como no meu tempo: falta eletricidade e só agora estão levando água tratada. Talvez haja menos serenidade do que no meu tempo porque se misturaram indígenas e latinos, vítimas ou colaboradores dos carrascos. Como vivem os jovens da Guatemala? Nossa juventude foi atingida pela violência e pelo medo. Será necessário tempo para que passe a angústia do passado, angústia que devemos enfrentar conhecendo os fatos. Já trabalhamos muito nos organismos humanitários e nas igrejas para recuperar a memória histórica e documentar o que aconteceu. Depois do relato Guatemala, nunca mais, baseado em milhares de entrevistas e apoiado pela Igreja católica, temos investigado e achado 200 valas comuns. Estamos exumando os corpos, ou melhor, o que sobrou deles. Qual o envolvimento dos párocos dessas igrejas? Não havia mais párocos. Devemos lembrar que onde o conflito era mais violento, vários padres foram mortos ou tiveram que fugir. Até o bispo Dom Gerardi foi exilado. As igrejas e casas paroquiais se tornaram bases militares. Suas denúncias contra altos oficiais em tribunais espanhóis serviu para apaziguar a Guatemala? Estou convencida de que a impunidade danifica toda tentativa de pacificação da nossa sociedade. Por isso denunciei, pois era impossível que fossem incriminados na Guatemala. Queremos que os assassinos tenham um processo justo, coisa que na Guatemala não concederam a meu pai, meus irmãos e muitos outros. A Guatemala é um país enlutado, mas pelo menos que seja um luto com justiça e dignidade. |
Ficha técnica: Nome oficial: República de Guatemala Capital: Guatemala População: 11,1 milhões Religião: predominantemente cristã Expectativa de vida: Analfabetismo: 33% Renda per capita: US$ 1.580
República mais populosa da América Central, a Guatemala é uma nação de profundas raízes indígenas, que remontam ao tempo da civilização maia e estão presentes em suas manifestações culturais. Metade dos guatemaltecos são ameríndios do grupo maia; o segundo lugar, em número, é ocupado pelos ladinos, mestiços de espanhóis e índios. Há também uma pequena porcentagem de brancos, negros e asiáticos. Os grupos indígenas mais tradicionais vivem na região montanhosa, dedicam-se à agricultura, à pecuária, ao artesanato têxtil e ao comércio. Porém, os cargos importantes da administração, da economia e da cultura são ocupados por brancos e ladinos. A língua oficial é o espanhol, mas também são falados cerca de vinte línguas indígenas, a maioria de origem maia. A Guatemala possui consideráveis riquezas naturais, mas a renda nacional provém principalmente da agricultura. Há fortes contrastes entre as lavouras primitivas dos índios e as modernas plantações financiadas pelo capital estrangeiro e destinadas à exportação. A atividade industrial, mesmo tendo crescido na segunda metade do século XX, ainda representa pequena parte da renda racional. PARA REFLETIR 1. O que mais lhe impressionou do testemunho de Rigoberta? 2. Onde ela encontrou forças para reagir a tamanha opressão? |
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