Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Igreja no Mundo

O ano 2000 foi, para a Igreja, um tempo especial de celebração, revisão e reflexão sobre sua milenar caminhada. A Igreja não teve medo de reconhecer também seus erros e de pedir perdão. Mas, ao iniciarmos o Terceiro Milênio, não podemos ficar nisso! Precisamos olhar para frente, sonhar, planejar, realizar... Novos fatos e novas exigências desafiam a ação missionária da Igreja. A coragem, a preparação e o otimismo devem caracterizar os apóstolos do novo milênio.

VIRADA DE MILÊNIO

Não é que a vida, observada de perto, parece sempre igual? E não é que, observada de longe, revela grandes mudanças? Nós temos a sorte de viver a passagem do segundo para o terceiro milênio da era cristã. Mil anos atrás, para não falar de dois mil, no tempo do nascimento de Jesus... a vida era muito diferente!

É impressionante o quanto mudou a humanidade nos últimos cem anos, no século XX que está terminando! No tempo de Jesus viviam cerca de 200 milhões de seres humanos, eram 500 milhões em 1650, um bilhão em 1850, hoje são mais de 6 bilhões. Só nos últimos cem anos a humanidade aumentou quase quatro vezes.

Nossos conhecimentos, nos últimos anos do século XX, aumentaram de forma impressionante. Aliás, esse é o drama que vivemos: temos uma ciência e uma técnica poderosas, que conhecem o infinitamente grande, a idade e as dimensões do universo, estrelas muitas vezes maiores e mais quentes que o sol, e que manipulam sempre melhor o infinitamente pequeno, inclusive os seis bilhões de “letras” que constituem o genoma humano e estão presentes em cada célula do nosso corpo!

Infelizmente, não temos ainda a ética e a política adequadas para vivermos melhor, apesar de todos os recursos que temos. 20% da população mundial ainda passa fome. Só no Brasil temos ainda quase 50 milhões de irmãos nossos que vivem na mais dura pobreza. Dezenas de guerras e violência de todo tipo estão marcando a vida de muitas populações nos cinco continentes.

O QUE VIRÁ DEPOIS?

Começando um novo milênio, muita gente pensa justamente que está na hora de consertar o mundo e de realizar o sonho de uma humanidade que finalmente viverá em paz.

Alguns acreditam que o único conserto pode vir de Deus. Chegam a ponto de aguardar o fogo, que, descendo do céu, destruirá todas as forças do mal. Esperam, portanto, um “purificado” que virá de uma catástrofe.

Já outros pensam que o conserto virá do céu, mas de outra forma. Terminada a era de Peixes, começa agora a era de Aquário, quando os astros trarão paz à humanidade em lugar das guerras, amor em lugar do ódio.

Os cristãos, por sua vez, acreditam que um mundo novo poderá ser gerado se todos os seres humanos, homens e mulheres, cooperarem com a graça de Deus para construir uma sociedade diferente; convictos de que cada novo avanço no caminho da justiça e da paz será obtido pelo amor e pelo empenho de cada um, trabalhando em conjunto.

Essa esperança encontra fundamento não apenas pela fé naquele Deus pelo qual “tudo contribui para o bem daqueles que O amam” (Rm 8,28), mas também na experiência histórica de Jesus e da missão de seus discípulos, os primeiros que foram chamados “cristãos” (At 11,26).

A semente que Jesus plantou, que é a palavra de Deus, desde então não parou de crescer e dar frutos, apesar dos obstáculos que encontrou por parte das forças do mal e também nas próprias fraquezas dos fiéis (Mc 4, 14-19).

OLHANDO PARA A FRENTE

Se refletirmos bem sobre o início da pregação de Jesus, reconheceremos que suas chances de sucesso eram pequenas e as resistências à sua mensagem e ao seu projeto eram muito grandes. Aos adversários que lhe faziam notar isso, o próprio Jesus respondeu com a parábola do semeador (Mc 4, 3-9).

Este sabe que as sementes que espalha no campo podem encontrar numerosos obstáculos: aves do céu, pedras, espinhos ou ervas daninhas. Mesmo assim, Jesus tem certeza de que, um pouco mais adiante, a terra dará fruto e produzirá trinta, sessenta, cem vezes por um.

Está aí o convite a não termos um olhar míope, que só vê os obstáculos que nos cercam no momento presente. Está aí o convite a olhar mais longe, para a frente. Quanto é certa a nossa fadiga hoje, igualmente certa será a colheita amanhã. E o que plantarmos, recolheremos.

UM DESAFIO IMENSO E... VENCIDO!

Os OBSTÁCULOS que a pregação do Evangelho encontrou nos primeiros tempos não foram poucos:

  • a resistência de muitos judeus a uma interpretação da lei de Deus que parecia abalar a antiga Aliança e deformar a Lei;
  • o ceticismo de muitos pagãos, para os quais o mundo divino não conhecia nenhuma compaixão para com os seres humanos;
  • uma sociedade desigual e dominadora, que hostilizava toda tentativa de mudança mais profunda e tolerava a busca intimista do prazer e qualquer vício individual, desde que não pusesse em discussão as estruturas da dominação;
  • o desconhecimento da fraternidade e solidariedade entre homens e mulheres, cuja dignidade era pisada pela escravidão, a prostituição, o abandono das crianças e dos idosos, o desprezo dos pobres e fracos ...
  • alguns obstáculos internos da própria comunidade cristã.

EXIGÊNCIAS - Deixando a Palestina e tomando o caminho do Ocidente, a mensagem cristã devia:

  • ser traduzida numa nova língua e formulada para uma nova cultura, a dos gregos e do helenismo, como também ser submetida à nova ordem social e política dos romanos;
  • ser confrontada com centenas ou milhares de experiências religiosas diversas, que pouco ou nada tinham em comum com a religião dos judeus.

A MENSAGEM CRISTÃ chegou “até os confins da terra” (At 1, 8). O livro dos Atos dos Apóstolos termina mostrando Paulo pregado na própria Roma (At 28, 31).

Mas essa pregação continua. A missão cristã está diante de nós: nos países cristãos, que precisam de “nova evangelização”, e em inúmeros povos, entre os quais o Evangelho ainda é pouco conhecido.

Para pensar melhor e enfrentar com mais ardor a missão que está à nossa frente, temos um caminho: redescobrir o segredo que permitiu à primeira geração cristã, dócil ao Espírito, realizar a mais bem sucedida ação missionária de todos os tempos.

Com Pedro e Paulo, com Tiago e João, com Estevão e Filipe, com Áquila e Priscila, com Lídia e Maria e com tantos outros cristãos da primeira hora, percorreremos este caminho, sem olhar para trás, mas “olhando para a frente”.

O nosso guia, na virada do milênio e início de uma nova etapa da missão da Igreja, será o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas. O evangelista, além de contar a vida de Jesus, quis descrever também a Igreja que, em meio a inúmeras dificuldades, ia crescendo e se espalhando pelo mundo com a presença marcante do Espírito Santo.

“Ser Igreja no Novo Milênio” é o projeto através do qual a Igreja do Brasil, lendo o livro dos Atos dos Apóstolos, buscará voltar para as fontes de sua fé, sem cair numa mera repetição, mas acolhendo e conservando o dinamismo das primeiras comunidades cristãs.

Fonte: “Olhando para a frente” (CNBB)

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