Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História do Mês
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Uma vez, há muitos anos, tantos que nem se sabe quantos, uma mãe, carinhosa e fecunda como poucas, deu à luz, na generosidade de quem só tem vida para dar, a uma chuva de filhos: centenas, milhares. A mãe chamava-se Terra e os filhos Homens e Mulheres. Antes que eles nascessem, a mãe preparou-lhes um berço, com sol e estrelas para os aquecer, noites e água para os refrescar, árvores e sombras para os acolher. Um berço que levou tempo a preparar, pois tudo foi confeccionado à mão, com a paciência e o carinho de quem prepara o enxoval do primeiro bebê. Depois os filhos nasceram e nada Ihes faltou: água fresca para beberem, frutas suculentas para comerem, relva macia para jogarem às escondidas, montanhas e colinas para subirem e ver o sol nascer. Enquanto eram pequenos, os Filhos da Terra amavam a mãe de todo o coração e se sentiam felizes. Sem ela não sabiam viver. E inventaram mimos de ternura que s8 as crianças sabem inventar: faziam-lhe festas no inicio das estações, no tempo das sementeiras e das colheitas, no princípio e no fim das chuvas, na primavera (quando as andorinhas chegavam) e no outono (quando elas partiam). Foi nesse tempo que aprenderam a erguer as mãos e a rezar e fizeram dos campos e das vinhas e dos serões ao luar, casas de oração e de louvor. Mas os filhos da Terra cresceram e, como acontece às crianças crescidas, foram para a escola. E ai começaram a trocar os lirios do campo e as borboletas dos vales pela gramática das letras e dos números, dos cálculos e dos interesses dos grandes e foram-se esquecendo do sorriso e da ternura da Terra Mãe. Pouco a pouco deixaram de ter gosto pelas festas dos campos e dos caminhos e acabaram por esquecer as orações que gostavam de rezar nas noites de lua cheia. E a mãe da infância foi ficando cada vez mais longe, esquecida na poeira de uma infância perdida. E foi na escola que eles descobriram que a devoção à Mãe Terra era não só uma infantilidade ridícula como acabaram por ver nela um concorrente que escondia tesouros que poderiam Ihes enriquecer. E vão então a explorar a terra, violentá-la, despojá-la dos seus tesouros e dos seus mistérios, cada qual a roubar-lhe o mais que podia. Afinal, a Terra era um concorrente a combater e a destruir. Amar a terra não passava de obscurantismo e superstição medieval, sem sentido nestes tempos de letras e de doutores. E as árvores da floresta começaram a murchar, a água a regressar às fontes. A Terra Mãe tornou-se um deserto. Deixou de ter jardins para as crianças brincarem, céu azul para os papagaios voarem, os peixes deixaram os rios e os lagos, os frutos da terra foram confiscados e vendidos a leilão na praça pública. E então os homens recolheram-se em campos de concentração, a que chamaram cidades, fecharam-se em gaiolas de cimento, fecharam as janelas e as portas, puseram grades de ferro em volta e um cão a guardar e começaram a viver de armas na mão. Peter Ribes
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