Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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Para a edificação e fortalecimento das comunidades, era costume narrar-se o martírio de cristãos. Esses Atos de Mártires eram sucessivamente enviados às outras igrejas, que se entusiasmavam e fortaleciam com sua leitura. Outros livros, que a Igreja não aceitou como fiel expressão da fé cristã, receberam o nome de apócrifos, não revelados, não canônicos. Entre esses citamos o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, a Infância de Jesus, a Vida de Maria, o Testamento dos XII Patriarcas e a Ascensão de Moisés. A Igreja manteve sempre muita vigilância sobre a literatura religiosa, para que fosse conservada íntegra a unidade da fé entre as comunidades e diante do mundo. O entusiasmo religioso, o fervor dos convertidos sempre correu o perigo de resvalar para a heresia e a fantasia.
Após o Novo Testamento, os escritos cristãos mais antigos são cartas que serviam de estímulo e instrução para as comunidades. Falam da salvação em Cristo, exortam a que todos esperem com confiança a volta do Senhor, pedem a união com os pastores e que não se deixem seduzir pelas heresias. Estes primeiros escritores são chamados de Pais-Padres Apostólicos: Barnabé, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pápias de Hierápolis e a Carta a Diogneto, esta última apresenta uma bela descrição dos cristãos: eles vivem no mundo, participam de tudo, se parecem com todos, mas são diferentes, pois um outro espírito os anima. Outro conjunto de escritos, dos séculos II e III, versam sobre a vida das comunidades cristãs. São muito importantes porque retratam a vida litúrgica, a organização e os costumes das comunidades. Destacamos os dois mais famosos: A Didaqué - Doutrina dos Apóstolos, que alguns autores pensam ter sido escrito ainda nos tempos apostólicos, é uma espécie de catecismo, pois encerra prescrições litúrgicas para o batismo, preceitos sobre o jejum, a oração e o domingo, determinações para as autoridades na Igreja e a doutrina dos dois caminhos. A Tradição Apostólica de Hipólito, redigida em Roma pelo ano de 215, transmite-nos informações sobre a antiga liturgia romana e é o primeiro escrito que descreve minuciosamente e registra orações litúrgicas. Também trata dos ofícios e ministérios na comunidade, como eleição e sagração de bispos e ordenação de presbíteros e diáconos.
Os cristãos não tiveram que enfrentar somente a crueldade da perseguição que gerava mártires. O paganismo também, desembainhando as armas intelectuais, atacou os fundamentos da fé cristã. São escritores pagãos que agem em defesa da religião imperial romana, da antiga filosofia, pensando estar defendendo a própria unidade do Império. Celso é o mais conhecido destes escritores. Ele conhecia o Antigo Testamento e os Evangelhos. Pelo ano 178 ele escreveu o Discurso Verdadeiro, onde ataca as doutrinas cristãs da encarnação e da redenção e apresenta a vida de Jesus como fruto de enganos e fábulas. Porfírio, que talvez já tenha sido catecúmeno, é outro destes polemistas. Pelo ano 270 ele publicou Contra os cristãos e Filosofia derivada dos oráculos, oferecendo aos pagãos uma doutrina que afirmava ser de revelação divina.
Marco Aurélio (121-180), imperador e filósofo, também buscou desmoralizar os cristãos, especialmente acusando-os de odiarem a raça humana pelo seu desprendimento em sofrer o martírio. Muitos desses intelectuais procuravam demonstrar que os cristãos eram gente sem eira nem beira, e que a fé cristã era coisa para gente fracassada ou desocupada. Luciano de Samósata é outro polemista que fez muito sucesso pelo ano 170 através da obra A morte de Peregrino, história de um filósofo necromante e errante, ridicularizando os cristãos pelo amor fraterno e desprezo pela morte. Luciano quer retratar os cristãos como gente ignorante vítima de embusteiros. Estas obras e outras se constituíram numa forte tentativa de menosprezar a nova fé e evitar a adesão de novos membros.
As obras anti-cristãs desafiaram a Igreja a elaborar um outro tipo de literatura, dando-lhe aspecto científico, em forma apologética, isto é, de defesa frente aos ataques de intelectuais pagãos. Um grande número de pessoas, com sólida formação intelectual, entrara na Igreja e sentiu a necessidade do confronto com a filosofia pagã. A fé não nega a inteligência, pelo contrário, a confirma. Nascem as Apologias, mediante as quais o cristianismo abriu-se para o mundo, saindo dos pequenos grupos em que se isolava. Os apologistas não só expõem a fé cristã, mas vão além, demonstrando que a nova religião é o coroamento das mais altas aspirações do ser humano. Em outras palavras, o cristianismo é a realização plena e definitiva de todo o processo religioso e intelectual do ser humano. Alguns deles: Quadrato, Aristão, Milcíades, Apolinário, Melitão de Sardes, Aristides e, mais tarde Tertuliano com o Apologeticum.
São Justino, filósofo mártir (+ 165), é o mais conhecido dos apologistas. Nascido de família pagã, desde a juventude se inquietava buscando a verdade na filosofia. Num dia, em Éfeso, um ancião o convenceu de que a filosofia era insuficiente para chegar à doutrina da essência e da imortalidade da alma. Justino interessou-se pelo estudo dos Profetas do Antigo Testamento e, por eles, chegou ao cristianismo. Através da oração encontrou o caminho para Deus e para Jesus Cristo. Tornou-se um mestre itinerante, andando por toda a parte até chegar a Roma, onde fundou uma escola. Justino expunha a fé cristã perto do palácio imperial, desafiando o próprio imperador para um confronto. Escreve duas Apologias. Impressionante: São Justino dirige estes escritos de defesa do cristianismo ao imperador Antonino Pio e ao Senado romano. Não tem medo. Rejeita as acusações dirigidas aos cristãos e expõe a doutrina da religião cristã. Escreve também o Diálogo com Trifão, uma conversa de dois dias entre ele e um sábio judeu. Justino lança uma ponte entre a filosofia antiga e o cristianismo com a teoria das sementes da verdade: cada ser humano possui em sua inteligência uma semente da Verdade, de modo que tudo na história é orientado para a chegada e a aceitação de Cristo, a verdadeira sabedoria. Justino pagou com o sangue sua busca da Verdade e a defesa da fé. O imperador condenou-o à morte.
O cristianismo penetra em todos os ambientes do Império e tem de enfrentar novos desafios além do direito de existir: a defesa frente ao ataque intelectual pagão e a garantia de sua unidade interna diante das heresias que começam a surgir. A mais poderosa delas era o gnosticismo, que queria reduzir a fé cristã a um conhecimento intelectual. As Apologias defendem a fé e surge a necessidade de elaborar uma teologia. Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR 1 - Além da perseguição, quais as outras dificuldades encontradas pela Igreja nos primeiros séculos? 2 - Quais as acusações que os intelectuais pagãos faziam aos cristãos e à Igreja? 3 - Qual a atuação do apologista São Justino? |
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