Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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Com a reforma gregoriana, ficou sempre mais evidente que o papa era a autoridade que contava na Europa. Reis e príncipes, bispos e abades devem-lhe obediência. O gesto do imperador alemão Henrique IV, excomungado e de joelhos pedindo ao papa Gregório VII para que o absolvesse e lhe devolvesse o trono, dá a dimensão da mudança do eixo do poder. Sinal claro dessa autoridade é que o papa, e não o imperador, convoca as Cruzadas (o nome vem do sinal distintivo do peregrino em armas: a cruz), grandes expedições religioso-militares que movimentam a Europa por quase dois séculos, para libertar a Terra Santa. Os cristãos e os peregrinos na Palestina, apesar do domínio muçulmano desde 637, não tinham sido molestados. Em 1071, porém, Jerusalém foi conquistada pelos turcos e a pressão desses novos inimigos coloca em perigo a sobrevivência do Império do Oriente. O imperador Aleixo (1081-1118) lança um grito desesperado ao Ocidente: os Lugares Santos estavam fechados aos cristãos. Isso causou imensa comoção popular e, sob o comando do papa, inicia um grande movimento religioso e militar para libertar o Santo Sepulcro: as Cruzadas. CRUZADAS PELA TERRA SANTA Em 1095, no Sínodo de Clermont, o papa Urbano II reativou a consciência cristã em favor dos Lugares Santos do Oriente e promulgou a cruzada para libertar a Terra Santa das mãos dos infiéis. A motivação papal acentua que a expedição deveria ser uma expiação da cristandade manchada por rapinas, assassínios e opressões sobre os pobres. Tantas forças instintivas, antes canalizadas para o mal, deviam ser empregadas de forma positiva. Todos os participantes receberiam uma indulgência plenária.
A adesão foi inesperada. O papa nomeou o comandante do primeiro exército, mas os preparativos foram insuficientes: contentou-se com um mínimo de organização e, praticamente, marcando apenas o ponto de encontro. Os primeiros a se movimentarem foram os camponeses, dos quais a maior parte morreu pelo caminho. Infelizmente, em sua passagem pelos territórios romanos e outros, os cruzados aproveitaram para assassinar judeus e destruir seus povoados, movidos por um raciocínio bruto: nos Lugares Santos os judeus mataram a Cristo; era agora uma ocasião propícia para vingar o crime! Pierre dAmiens conduziu uma parte do exército, mas, chegada à Ásia Menor, foi exterminada pelos turcos. Desta primeira cruzada participaram entre 20 a 30 mil homens. Jerusalém foi ocupada em 1099. Rios de sangue inocente foram derramados: nem mulheres, nem crianças e nem velhos foram poupados. O comandante Godofredo de Bulhões foi eleito príncipe do Santo Sepulcro. A primeira Cruzada teve algum êxito político, mas, o que vale para todas, sempre de curta duração. SÃO BERNARDO, ANIMADOR DAS CRUZADAS A segunda Cruzada, organizada em meados do século XII, foi pregada por São Bernardo de Claraval, que encerrava seus sermões realizando milagres. Toda a Europa participou desta expedição comandada por Luiz VII da França e Conrado III da Alemanha. Foi um fracasso terrível: ataques turcos, desânimo e doenças destruíram a obra. Grande desilusão no Ocidente: Deus não estaria mais do lado dos seus? O sultão Saladino, em 1187, reconquistou Jerusalém. Organizou-se então a terceira Cruzada, sob o comando de Frederico Barbaroxa da Alemanha, Filipe Augusto da França e Ricardo Coração de Leão da Inglaterra. Iniciativa grandiosa, mas inútil, fracassando quase totalmente pelos ciúmes e desentendimentos entre as cabeças coroadas. O SAQUE DE CONSTANTINOPLA Marcou tristemente a história da Igreja a quarta Cruzada (1204), solicitada por Inocêncio III. Contra toda a orientação histórica e religiosa, os cruzados tomaram Constantinopla, sob forte influência dos interesses comerciais dos venezianos. Assassinaram o imperador Isaac Ângelos e seu filho e, estupidamente, fundaram o Império Latino de Constantinopla! A cidade foi profanada, saqueada, ícones destruídos e suas virgens estupradas. Sacrilegamente profanou-se toda a tradição religiosa e eclesial do Oriente. (Obs.: em 5 de maio de 2001, João Paulo II pediu perdão aos ortodoxos por essa atitude cruel e pelas responsabilidades do católicos na queda de Constantinopla em 1453. Verdade é que a ferida continua aberta).
Cruzada das crianças. Como as Cruzadas de adultos não produzissem o resultado esperado, em 1212 promove-se a trágica cruzada das crianças. Milhares de meninos, guiados por um pastorzinho francês e outro alemão, de apenas 10 anos, estavam convencidos de que a graça de Deus iria servir-se dos pequeninos para obter aquilo que grandes exércitos não conseguiram. A expedição terminou tragicamente: uns morrem em naufrágios, outros são presos por comerciantes de escravos, outros ainda são trucidados. Poucos chegaram a Bríndisi, de onde foram constrangidos a retornar. Houve também a Cruzada dos pobres, dos pastorezinhos. O imperador Frederico II, anteriormente excomungado, parece ter tido maior sucesso. Em 1228, com negociações, conseguiu Jerusalém, da qual tomou a coroa real em 1229. Inúteis foram os esforços do santo rei Luiz IX da França, desenvolvidos em 1250 e em 1270, que lhe causaram a prisão e a morte em Túnis. O FRACASSO DAS EXPEDIÇÕES Após uma luta incrivelmente dispendiosa, durante dois séculos, a última possessão cristã no Oriente cai, em 1291, nas mãos dos muçulmanos. Fracassaram assim os ataques contra o Islã. Contudo, quer como expressão da natureza da Idade Média, quer pelos reflexos sobre o Ocidente, as Cruzadas devem ser incluídas entre os empreendimentos mais importantes da história medieval. CAUSAS E ESSÊNCIA São um fenômeno religioso. Há, na Igreja européia, um grande fervor, o desejo da salvação e a decisão de peregrinar. Combater os infiéis era um socorro à Igreja padecente e toda operação guerreira em favor da cristandade trazia uma bem-aventurança. São um fenômeno migratório e popular devido às escassas colheitas de 1095 e a opressão dos senhores. Muitos filhos de famílias nobres, sem herança, viram nelas a possibilidade de adquirir um domínio. Acrescente-se ainda o gosto pela aventura e os grandiosos projetos comerciais de Pisa e Veneza. Ordens Cavalheirescas foram fundadas para garantir a posse dos territórios cruzados. Nasceram assim as ordens dos Templários, Joaninos, Teutônica, dos Porta-Espada. Nelas, os monges proferiam os três votos religiosos e dedicavam-se aos doentes e pobres, além da defesa dos territórios. O FRACASSO DAS CRUZADAS Como conciliar a religião do amor e do Crucificado com a tentativa de difundir a religião com a espada? Foram, na realidade, uma Guerra Santa a exemplo da Guerra Santa do Islã. Quase nunca foi condenado o ódio contra os inimigos da fé e ganhou espaço o pensamento de ganhar o Paraíso matando. Foram as mais sangrentas guerras medievais e, pela extensão, podem ser consideradas verdadeiras guerras mundiais, pois atingiram a Europa, a Ásia e a África. As cruzadas fracassaram por uma necessidade objetiva: o ideal cristão das Cruzadas não poderia sobreviver, pois o Reino de Deus não pode triunfar pela espada, nem a família de Deus aumentar pelo derramamento de sangue. Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR
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