Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Primera Página

O humorista Arnaud Rodrigues na canção Índio do Uruguai aprende sabedorias milenares com um velho índio. O sábio palhaço fisga lições vitais da cultura guarani, sensível ao místico, à convivência pacífica, à economia de reciprocidade, à interação ecológica e à fé alegre. A prosa é simples, os grifos são meus:

“Eu conheci um velho índio do Uruguai / Que há muito já foi onde a gente nem sabe se vai / Conhece a vida traz prá frente e frente prá traz / Andou nos caminhos do vem, nas veredas do vai. Eu aprendi com o velho índio do Uruguai, / que a vida é de quem corre menos em busca do mais.

Disse que o mar, pára na areia / me disse que a alma é mais pura naquele em que a carne é mais feia.

Conheci um velho índio do Uruguai / Que fez e que faz coisas índias que o branco não faz.
Me disse que a Estrela-d’alva assim que sai

É hora de falar ao Filho em nome do Pai.

E disse que o mar, pára na areia / me disse que fome de amor só o amor é que serve de ceia.

É isso aí. O sábio palhaço do programa de TV A Praça é Nossa escreveu esta lição nos anos 70. Mas como as sabedorias do Espírito não tem dono nem idade, são atemporais e universais; as lições do velho índio continuam atualíssimas. Ainda mais nestes tempos críticos em que alguns pseudo-donos do mundo, mega-empresários das indústrias da fome e da guerra, reviraram o Planeta de pernas pro ar deixando-nos a impressão de que o mundo está falido.

O CATEQUISTA ESPÍRITO SANTO

Prá renovar a esperança, nada melhor que repescar estas velhas sabedorias do Espírito Santo na boca dos guarani e de outros povos, ancestrais de todos nós. Povos resistentes que foram condenados há 500 anos a viver sem terra, sob lonas de beira de asfalto.

Na verdade, eram 900 povos com 320 línguas e dialetos diferentes. No baixo amazônico, por exemplo, o Tupi-guarani e o Tupinambá garantiam a convivência pacífica não só na diversificação lingüística, mas também culturais, isto é, atingindo o conjunto variado de costumes, culinária, tecnologias, visão religiosa e utopias. Onde e com quem aprenderam esta vida de Pentecostes, invertendo Babel, usando línguas federativas?

Sem dúvida, é com o catequista chamado Espírito Santo. É Ele o mestre em semear o Cristo no coração de todas as culturas, há milênios.

UNIVERSALIDADE GUARANI

É impressionante no guarani, por exemplo, este jeito de ser que busca valores universais.
Esta universalidade da cultura guarani foi comprovada em setembro de 2001 em Florianópolis-SC, por um dos catequistas mais conhecedores dos Guarani, o padre Bartolomeu Meliá:

“Eu diria que o pensamento deles não está tão distante do nosso pensamento utópico. Quando nós pensamos utopia e falamos com o Guarani, parece bastante afinado. Talvez o estilo do povo Guarani seja facilmente universalizável, assim como o budismo também é facilmente universalizável. Há povos que, pela sua cultura, são relativamente fáceis de serem universalizados, tanto pela sua linguagem, quanto pelo seu modo de ser pacífico, que consegue as coisas mais pela paciência do que pela agressividade.”

Para os guarani, o mito da Terra sem males faz dele mais que um povo migrante, um povo que se crê povo das palavras sem males. Ele se pensa assim, mensageiro de Nhanderu, catequista de Nhanderu construindo uma Terra sem males, aqui e para além daqui. Prova de que esta beleza provém do Espírito Santo é a resistência impressionante destes povos em continuar obedientes a Deus após tantos etnocídios, descasos e abusos cometidos ontem e hoje com seus descendentes.

Se não fosse na força do Espírito, não resistiriam. Afinal, é o Espírito que evangeliza, ontem, hoje e sempre. Antes de nós e para além de nós.

NA ALDEIA DE MACIAMBU

Além da canção do humorista, repasso-lhes outra obra prima inédita, bem ao sabor da CF 2002: É do CD Mboraí Marae - y - Cantos sagrados - gravado na aldeia do Maciambu - Palhoça-SC. Compositores e cantores são jovens Mbyá-guarani que cresceram entre nós.

Tinham vergonha de cantar e dançar para Deus Nhanderu e para a Mãe do Céu Nhandecy, porque sentiam que os não-índios debochavam de seus rituais. No CD eles quebram a timidez. As letras são mântricas, tem sabor de ladainha, cantochão. Mais parecem suas flechas certeiras no alvo do essencial.

Vejam só:
Jaje-oi mombyry yvyjuitui va ekue / jaupity jaupity Imãvy javy a iagwã / japuti mborai.

Vamos alcançar, mesmo longe, a Terra Sem Males / Quando chegarmos, vamos cantar nossa música / para sermos felizes.

(Música: YVY PORÃ -Terra sem males)

Jaci Rocha Gonçalves - teólogo culturalista

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